04.06.07
Brasília IV
Vocês sabem que eu sei falar língua de cachorro e de planta também? Amém. Mas minha palavras não é a última. Existe uma que não posso pronunciar. E minha história é galante. Sou uma carta anônima. Não assino o que escrevo. Os outros que assinem. Não sou credenciada. Eu? mas logo eu? Nunca! Preciso de um pai. Quem se candidata? Não, não preciso de pai, preciso do meu igual. Espero a morte. Mas que vento, meu senhor. Vento é coisa que não se pode ver. Pergunto a Nosso Senhor Deus Jeovah sobre sua cólera em forma de vento. Só Ele pode explicar. Ou não pode? Se Ele não pode, estou perdida. Ai que te amo e amo tanto que te morro.
Lembram que eu falei na quadra de tênis com sangue? Pois o sangue era meu, o escarlate, os coágulos eram meus.
Brasília é corrida de cavalos. Eu não sou cavalo não. Que Brasília se dane e corra sozinha sem mim.
Brasília é hiperbólica. Estou suspensa até à última ordem. Eu vivo de teimosa que sou. Aterrissei mesmo. There is no place like home. Como é bom voltar. Ir é bom mas voltar é mais melhor. Isso mesmo: mais melhor.
O que é supletivo em Brasília? Não sei não, meu senhor. Só sei que tudo é nada e que nada é tudo. Meu cachorro dorme. Eu sou o meu cachorro. Eu me chamo Ulisses. Estamos ambos cansados. Tão, tão cansados. Ai de mim, ai de nós. Silêncio. Durma você também. Ah cidade espantada. Ela se espanta com ela mesma. Estou rançosa. Vou até reclamar como Chopin reclamou sobre a invasão da Polônia. Afinal tenho direitos. Eu sou eu, é assim que os outros dizem. E se dizem, por que não acreditar? Adeus. Estou enfastiada. Vou reclamar. Vou reclamar para Deus. E se Ele puder, que me atenda. Sou uma necessitada. Saí de Brasília com uma bengala. Deus é uma coisa engraçada: Ele se pode a si mesmo e se precisa a si próprio.
Vim para casa, é verdade, mas não é que minha cozinheira faz literatura? Eu lhe perguntei cadê a coca-cola na geladeira. Ela me respondeu, nega bonita que é: ela estava tão cansadinha, então eu botei ela pra descansar, coitadinha. Uma vez, há séculos, contei a Paulo Mendes Campos uma frase que minha empregada de então tinha me dito. E ele escreveu qualquer coisa assim: cada um tem a empregada que merece. Minha empregada tem uma voz linda e canta para mim quando eu peço: “ninguém me ama”. Ela desenha, faz literatura. Tão humilde que fico. Pois não mereço tanto.
Eu não sou nada. Sou um domingo frustrado. Ou estou sendo ingrata? Muito me foi dado, muito me foi tirado. Quem ganha? Não sou eu não. É alguém hiperbólico.
Brasília, seja bicho um pouco também. É tão bom. Ao bom mesmo. Não ter pipi-dog é uma ofensa a meu cachorro que nunca irá a Brasília por motivos óbvios. São quinze para seis. Hora nenhuma. Até Kissinger está dormindo. Ou está num avião? Não há como adivinhar. Feliz aniversário, Kissinger. Feliz aniversário, Brasília. Brasília é um suicídio em massa. Brasília, você está se coçando? eu não, não caio nessa porque quem começa não pára de se. Você sabe o resto.
O resto é paroxismo.
Ninguém sabe, mas meu cachorro não só fuma como bebe café e come flor. E bebe cerveja. Toma também remédio contra depressão. Parece um mulatinho. O que ele quer é cadela. Ele é de classe média. Eu não deixei o jornal saber tudo. Mas agora é a hora da verdade. Também você tenha a coragem de ler. É um cachorro que só lhe falta escrever. Come caneta e estraçalha papel. Melhor que eu. Ele é filho animal. Nasceu de instantâneo contato da Lua com uma égua. Égua do Sol. Ele é uma coisa que Brasília não é. Ele é: bicho. Eu sou bicho. Tenho tanta vontade de me repetir, só para chatear. Meu Deus, voltei atrás no tempo. São exatamente vinte para seis. E respondo à máquina: yes. A máquina monstruosa. É um telescópio. Que ventania. É ciclone? É.
Mas que lugar par ser bonito. Hoje é segunda-feira, dia 10. Como vê, eu n~]ao morri. Vou ao dentista. Semana perigosa, essa. Eu falo a verdade. Não a verdade toda, como disse. E se Deus sabe, isso é com Ele. Ele que se arrume. Não sei mas vou me arrumar como posso. Como aleijado. Viver de graça é que não se pode. Pagar para viver? Tenho sobrevida. Igual ao vira-lata Ulisses. Quanto a mim acho que.
Que vergonha. É meu caso de vergonha pública. Tenho três bisontes na minha vida. Um mais um mais um mais um mais um. O quarto me mata em Malta. Na verdade o sétimo é o mais brilhante. Bisonte, para quem não sabe, é animal de caverna. Desempenho as minhas histórias. Calor humano. Cidade sem medo, essa. Deus é a hora. Vou durar ainda. Ninguém é imortal. Vê lá se encontra um que não morre.
Morri. Morri assassinada por Brasília. Morri para pesquisar. Rezem por mim porque eu morri de costas.
Olha, Brasília, fui embora. E que Deus me acuda. É sou um pouco antes. É só isso. Juro por Deus. E sou um pouco depois também. Que é que há de se fazer. Brasília é vidro partido no chão da rua. Cacos. Brasília é ferrinho de dentista. E muito motocicleta também. Sem deixar de ser ova de peixe, bem frita e bem salgada. Acontece que sou tão ávida da vida, tanto quero dela e aproveito-a tanto e tudo é tanto — que me torno imoral. Isso mesmo: sou imoral, Que bom ser imprópria até dezoito anos.
Brasília faz ginástica todos os dias ás cinco da manhã. Só os baianos de lá é que entram nessa. Fazem poesia.
Brasília é o mistério classificado em arquivos de aço. Tudo lá se classifica. E eu? quem sou? como é que me classificaram? Deram-me um número? Sinto-me numerificada e toda apertada. Mal caibo dentro de mim. Eu sou um euzinho muito mixa. Mas com certa classe.
Ser feliz é uma responsabilidade tão grande. Brasília é feliz. Tem essa ousadia. O que será de Brasília no ano, digamos, de 3000? Quanta ossada. Ninguém se lembra do futuro porque não pode ser. As autoridades não deixam. E eu, quem sou? obedeço de puro medo ao mínimo soldado que apareça na minha frente e me diga: considere-se prendida. Ai vou chorar. Sou por um triz. On the verge of.
Está se vendo que não sei descrever Brasília. Ela é Júpiter. É palavra bem aplicada. É gramatical demais para o meu gosto. E o pior é que ela exige gramática but I don’t know, sir, I don’t know the rules.
Brasília é um aeroporto. Os alto-falantes anunciando fria e cortesmente a partida dos aviões.
Que mais? é que não se sabe o que fazer em Brasília. Só fazem os que trabalham danadamente, os que danadamente fazem filhos e danadamente se reúnem em jantares de grandes delicadezas.
Fiquei hospedada no Hotel Nacional. Apartamento 800. E bebi coca-cola no quarto. Vivo — boba que sou fazendo propaganda de graça.
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criado por furquimjr
01:28:08