04.06.07
Brasília III
Eu, a escriba. Eu, a infeliz definidora por destino. Brasília é o contrário de Bahia. Bahia é nádegas. Ah que saudade da embebida praça de Vendôme. Ah que saudade da Praça Maciel Pinheiro em Recife. Tanta pobreza de alma. E tu a exigires de mim. Eu, que nada posso. Ah que saudade de meu cachorro. Tão íntimo que ele é. Mas um jornal tirou o retrato dele e ele ficou na boca da rua. Eu e ele. Nós, irmãozinhos de São Francisco de Assis. Calados fiquemos: é melhor para nós.
Ai que te pego, Brasília! E vai sofrer torturas terríveis nas minhas mãos! Você me incomoda, ó gélida Brasília, pérola entre os porcos. Oh apocalíptica.
E de repente a grande desgraça. O estrondo. Por quê? Ninguém sabe. H Deus, como é que eu não vi logo? pois não é que Brasília é a “A Saúde da Mulher”? Brasília diz que quer mas não quer: negaceia. Brasília é um dente quebrado bem na frente. E é cúpula também. Tem um motivo principal. Qual é? segredo, muito segredo, sussurros, cochichos e chichos. Diz-que-diz que não acaba mais.
Saudável, saudável. Aqui sou professora de educação física. Dou trambolhões. É isto mesmo: faço o inferno. Brasília é inferno paradisíaco. É uma máquina de escrever: toc-toc-toc. Quero dormir! me deixem em paz!!! Estou can-sa-da. De ser in-com-pre-en-sí-vel. Mas não quero que me compreendam senão perco a minha intimidade sagrada. É muito grave o que estou falando, muito grave mesmo. Brasília é o fantasma de um velho cego com cajado fazendo toc-toc-toc. E sem cachorro, coitado. E eu? como posso ajudar? Brasília se ajuda. É um violino fino, fino. Falta violoncelo. Mas que estrondo. Não se precisa disso, não. Eu afinaço. Embora Brasília não tenha fiador.
Quero voltar a Brasília para o apartamento 700. Assim ponho o pingo no “i”. Mas Brasília não flui. Ela é ao contrário. Assim: iulf (flui).
Ela é doida porém funciona. Como detesto a palavras “porém”. Só uso porque é preciso.
Quando anoitece Brasília se torna Zebedeu. Brasília é farmácia noite-e-dia.
A moça me revistou toda no aeroporto. Eu perguntei: tenho cara de subversiva? Ela disse rindo: até que tem. Nunca me apalparam tanto, Virgem Maria, até que é pecado. Foi um tal de passar a mão em mim que nem sei como agüentei.
Brasília é magra. É toda elegante. Usa peruca e cílios postiços. É pergaminho dentro de pirâmide. Não envelhece. É coca-cola, meu Deus, e vai me sobreviver. Que pena. Para a coca-cola, é claro. Socorro! Socorro! help me! Sabe qual é a resposta de Brasília ao meu pedido de socorro? É oficial: aceita um cafezinho? E eu? fico sem socorro? Me trate bem, ouviu? assim... assim... bem devagarzinho. Isso. Isso. Que alívio. Felicidade, meu bem, é alívio. Brasília é um pontapé no traseiro. É lugar para português enriquecer. E eu que jogo no bicho e não ganho?
Mas que nariz bonito Brasília tem. É delicado.
Você sabia que Brasília é etc.? Pois fique sabendo. Brasília é XPTR... quantas consoantes você quiser mas nenhuma vogal para se descansar. E Brasília, ó senhor, me desculpe, mas Brasília ficou por isso mesmo.
Olhe, Brasília, não sou dessas que nadam por aí, não. Mais respeito, faça o favor. Sou uma viajante espacial. Muito respeito eu exijo. Muito Shakespeare. Ah que eu não quero morrer! Ai, que suspiro. Mas Brasília é a espera. E eu não agüento esperar. Fantasma azul. Ah, como incomoda. É como tentar lembrar-se e não conseguir. Quero esquecer Brasília mas ela não me deixa. Que ferida seca. Ouro. Brasília é ouro. Jóia. Faiscante. Tem coisa sobre Brasília que eu sei mas não posso dizer, não deixam. Adivinhem.
E que Deus me acuda.
Vai, mulher, vai e cumpre o teu destino, mulher. Ser a mulher que sou é dever. Estou neste instante-já hasteando as bandeiras — mas que minuano! — e eu dizendo viva!
Ai que cansaço.
Em Brasília é sempre domingo. Mas agora vou falar bem baixinho. Assim: meu amor. Meu grande amor. Tenho dito? Você é que responde. Vou terminar com a palavra mais bonita do mundo. Assim bem devagarzinho: amor mas que saudade. A-m-o-r. Beijo-te. Assim como flor. Boca a boca. Mas que ousadia. E agora — agora paz. Paz e vida. Es-tou vi-va. Talvez eu não mereça tanto. Estou com medo. Mas não quero terminar com medo. Êxtase. Yes, my love. Entrego-me. Sim. Pour toujours. Tudo – mas tudo é absolutamente natura. Yes. Eu. Mas sobretudo você é culpada, Brasília. No entanto eu te desculpo. Não tens culpa de ser tão bela e patética e pungente e doida. Sim, está soprando um vento de Justiça. Então eu digo à Grande Lei Natural: sim. Ó espelho partido: quem é mais bonita que eu? Ninguém, responde o espelho mágico. Sim, bem sei, somos nós duas. Sim! sim! sim! Eu disse sim.
Peço humildemente socorro. Estão me roubando. Todo o mundo é eu? Espanto geral. Isso não é ventania não, senhor, é ciclone. Estou no Rio. Desci afinal do disco voador. E lá me vem uma amiga a me dizer — olá Cármen Miranda! – a me dizer que existe uma música chamada Boneca de piche que diz assim mais ou menos: venho apertado com meus calos quentes, quase afogado no meu colarinho, pra ver meu bemzinho.
Aterrissei. Estou com voz frace mas digo o que Brasília quer que eu diga: bravo! bravíssimo! E chega. Vou agora viver no Rio com o meu cachorro. Peço o favor de fazerem silêncio. Assim: si-lên-cio. Estou tão triste.
Brasília é um olho azul cintilanterríssimo que me arde no coração.
Brasília é Malta. Onde fica Malta? Fica no dia do supernunca. Alô! alô! Malta! Hoje é domingo em Nova Iorque. Em Brasília, a fúlgida, já é terça-feira. Brasília simplesmente pula segunda-feira. Segunda é dia de se ir ao dentista, que é que se há de fazer, o que é chato também tem que ser feito, ai de mim. Em Brasília aposto que ainda se dança, que coisa. São seis e vinte da tarde, já quase noite. Às seis e vinte não acontece nada. Ale! Alô! Brasília quero resposta, tenho pressa, acabo de assumir a minha morte. Estou triste. O passo é grande demais para as minhas pernas no entanto compridas. Me ajudem a morrer em paz. Como eu disse ou como não disse, quero uma mão amada que aperte a minha na hora de eu ir. Vou sob protesto. Eu. A fantasmagórica. Meu nome não existe. O que existe é um retrato falsificado de um retrato de outro retrato meu. Mas a própria já morreu. Morri dia 9 de junho. Dominho. Depois de ter almoçado na preciosa companhia dos que amo. Comi frango assado. Estou feliz. Mas falta a verdadeira morte. Estou com pressa de ver Deus. Rezem por mim. Morri com elegância.
Tenho alma virgem e portanto preciso de proteção. Quem me ajuda? O paroxismo de Chopin. Só você pode me ajudar. No fundo sou sozinha. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem. Estou tão só. Eu e meus rituais. O telefone não toca. Dói. Mas é Deus que me poupa. Amém.
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criado por furquimjr
01:29:06