04.06.07
Brasília II
Dei inúmeras entrevistas. Modificaram o que eu disse. Não dou mais entrevistas. E se o negócio é mesmo na base da invasão de minha intimidade, então que seja paga. Disseram-me que nos Estados Unidos é assim. E tem mais: eu sozinha, é um preço, mas se entra o meu precioso cachorro, cobro mais. Se me distorcerem, cobro multa. Desculpem, não quero humilhar ninguém mas não quero ser humilhada. Eu disse lá que iria possivelmente à Colômbia e escreveram que eu ia à Bolívia. Trocaram o país à toa. Mas não tem perigo: de minha vida mesma eu só concedo dizer que tenho dois filhos. Não sou importante, sou uma pessoa comum que quer um pouco de anonimato. Detesto dar entrevistas. Ora essa, sou uma mulher simples e um pouquinho sofisticada. Misto de camponesa e de estrela do céu.
Adoro Brasília. É contraditório? Mas o que é que não é contraditório? Só se anda de carro pelas ruas despovoadas. Quando eu tinha carro e dirigia, vivia me perdendo. Nunca sabia onde vir e aonde chegar. Sou desorientada na vida, na arte, no tempo e no espaço. Que coisa, por Deus.
Lá as pessoas se jantam e se almoçam — é para ter gente que as povoe. Isto é bom e muito agradável. É a humanização lenta de uma cidade que por algum motivo é oculto é penosa. Gostei muito, me acariciaram tanto em Brasília. Mas havia pessoas que queriam que eu fosse embora a jatíssimo. Eu lhes atrapalhava a rotina. Para essas pessoas eu era uma novidade incômoda. Viver é dramático. Mas não há escapatória: nasce-se.
Como será quem nasce em Brasília quando crescer e virar homem? Porque a cidade é habitada por forasteiros nostálgicos. Os exilados. Os que nascem lá serão o futuro. Futuro faiscante como aço. Se eu ainda estiver viva, aplaudirei o produto estranho e altamente novo que surgirá. Será proibido fumar? Será proibido tudo, meu Deus? Brasília parece uma inauguração. Todos os dias é inaugurada. Festejos, minha gente, festejos. Que se ergam as bandeiras.
Quem me quer em Brasília? Então quem me quiser que me chame. Não já, porque ainda estou atordoada. Mas daqui a algum tempo. A ser viço. Brasília é a serviço. Quero falar com a camareira que me disse ao descobrir quem eu era: eu tinha tanta vontade de escrever! Eu disse: vá, mulher, e escreva. Respondeu: mas eu já sofri tanto. Eu disse severamente: pois vá e escreva sobre o que você sofreu.
Porque é preciso que alguém chore em Brasília. Os olhos dos habitantes são secos demais. Então — então eu estou me oferecendo para chorar. Eu e minha camareira, nós, as coleguinhas. Ela me disse: quando vi a senhora senti um arrepio no braço. Disse-me que era médium. É. Estou arrepiada. E sinto calafrios. Que Deus me acuda. Estou muda que nem lua.
Brasíla é tempo integral. Tenho medo, pânico dela. É lugar ideal para se tomar sauna. Sauna? Sim. Porque lá não se sabe o que fazer de si. Olha para baixo, olha para cima, olha para o lado — e a resposta é um berro: Nããããããão! Brasília dá um fora na gente que mete medo. Por que me sinto tão culpada lá? Que foi que fiz? E por que não ergueram bem no centro da cidade um grande ovo branco? É que não tem centro. Mas o ovo faz falta.
Que roupa se usa em Brasília? Metálica?
Brasília é o meu martírio. E não tem substantivo. É só adjetivo. E como dói. Ah, meu Deusinho, me dá um substantivinho, pelo amor de Deus! Ah, não quer dar? Então faz de conta que eu nada falei. Sei perder.
Oh aeromoça, vê se me dá um sorriso menos número! Isso é lá sanduíche que se coma? Todo desidratado? Mas faço como Sérgio Porto: me disseram que num avião a aeromoça lhe perguntou: o senhor aceita um cafezinho? E ele respondeu: aceito tudo o que tenho direito.
Em Brasília nunca é de noite. É sempre implacavelmente de dia. Castigo? Mas que foi que fiz de erra do, meu Deus? Não quero saber, diz Ele, castigo é castigo.
Em Brasília não se tem praticamente onde cair morto. Mas tem uma coisa: Brasília é proteína pura. Eu disse ou não disse que Brasília é uma quadra de tênis? Pois Brasília é sangue numa quadra de tênis. E eu? onde estou? eu? pobre de mim, com o lençol manchado de escarlate. Me mato? Não. Vico como bruta resposta. Estou ai para quem me quiser.
Mas Brasília é som oposto. E ninguém nega que Brasília é: goooooooool! Embora entorte um pouco o samba. Quem é? quem é que canta aleluia e eu ouço com alegria? Quem é que atravessa como espada afiadíssima a futura e sempre futura cidade de Brasília? Repito: proteína pura, que és. Me fertilizou. Ou sou eu mesma a cantar? Me ouço comovida. Há Brasília no ar. No ar infelizmente sem o apoio indispensável de esquina para se viver. Será que eu já disse que em Brasília não se vive? se mora. Brasília é osso seco de puro espanto no sol inclemente da praia. Ah cavalo branco mas que crina agreste. Ai, não posso mais esperar. Uma aviãozinho, por favor. E o lívido luar que entra pelo quarto adentro e me assiste, eu, pálida, branca, sestrosa.
Estou sem esquina. Meu rádio de pilha não pega música. Que é que há? Assim também não. Me repito? E dói?
Pelo amor de Seus (até errei de susto a palavra Deus), pelo amor de Deus, por favor me desculpem os que moram em Brasília por eu estar dizendo o que forçadamente digo, eu, uma humilde escrava da verdade.Não quero ofender ninguém. É apenas uma questão de luz branca demais. Tenho olhos sensíveis, fico invadida pela claridade alva e tanta terra vermelha.
Brasília é um futuro que aconteceu no passado.
Eterna como uma pedra. A luz de Brasília — estou me repetindo? — a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.
Fora disso, viva Brasília! Eu ajudo a hastear a bandeira. E perdôo a bofetada que me dão no meu rosto pobre. Ai, coitadinha de mim. Tão sem mãe. É dever ter mãe. É coisa da natureza. Sou a favor de Brasília.
No ano 2000 vai ter festa lá. Se eu ainda estiver viva, quero participara da alegria. Brasília é uma alegria geral exagerada. Um pouco histérica, é verdade, mas não faz mal. Gargalhadas no corredor escuro. Eu gargalho, tu gargalhas, ele gargalha. Três.
Em Brasília não tem poste para cachorro fazer pipi. Falta tanto um pipi-dog. Mas Brasília é jóia, meu senhor. Lá tudo funciona como deve. Brasília me encerra em ouro. Vou é ao cabeleireiro. Estou falando do Rio. Alô, Rio! Alô! Alô! estou realmente assustada. Que Deus me acuda
Mas tem hora que vou lhe dizer, meu amigo, tem hora em que Brasília é um cabelo na sopa. Sou muito ocupada, Brasília, vá para o diabo e me deixe em paz. Brasília fica em lugar nenhum. A atmosfera é de indignação e você sabe por quê. Brasília: antes de nascer já nasceu, a prematura, a nascitura, o feto, eu enfim. Ai que safadeza.
Em Brasília não entra qualquer um, não. É preciso nobreza, muita sem-vergonhice e muita nobreza. Brasília não é. É apenas o retrato de si próprio. Eu te amo, oh extrósima! oh palavra que inventei e que não sei o que quer dizer. Oh furúnculo! pus cristalizado mas de quem? Atenção: há esperma no ar.
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criado por furquimjr
01:30:41