Rainha de Espadas

I have a tale to tell. Sometimes it gets so hard to hide it well. I was not ready for the fall Too blind to see the writing on the wall. A man can tell a thousand lies I've learned my lesson well. Hope I live to tell the secret I have learn

Rainha de Espadas

I have a tale to tell. Sometimes it gets so hard to hide it well. I was not ready for the fall Too blind to see the writing on the wall. A man can tell a thousand lies I've learned my lesson well. Hope I live to tell the secret I have learn
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Terra Blog

15.09.07

O Magma III

Horas... minutos... segundos... Tic-Tac, Tic-Tac...
Tudo é o tempo da ilusão que me esvai assim, com a realidade, quando o olho, e sei que tudo é a água salgada que perfura os meus poros por serem mais permeáveis do que o imaginado pela relatividade, o que me fica no suor, é a parte exata, do que me sobra como a mágoa de ter nascido, morrido, e vivido de tal forma, que, tudo é o sangue!
O sangue, alimento de vampiros, alimento do próprio corpo, para o próprio corpo! É como saber da fotossíntese, e achar que a clorofila não é o mesmo! Mas o é. Mas tudo é o mesmo de forma divergente do que se imagina ser. E que por isso quando os carros passam a caminho do onde se pode ir... e que eu sei que sou algo que não funciona como o metal, da velharia, que fatalmente apodrecerá., mas, eis que os vermes irão roer-me, mas, isso se eu puder evitar... ah, viro cinzas antes, para que eu renasça, renasça quantas vezes for preciso só pra poder ver, o que não é mais do que a vida corrente da corredeira, que neste exato instante não parou de escoar água para que eu falasse tantas bobagens, essenciais, a mim mesmo!
Isto é como uma carta que não sei dizer! Isso é como uma lágrima que não sei escorrer! Isso é como o sangue que não sei tomar! Mas que escorro, mas que choro, mas que bebo.
Ah, tudo é o que dilacera o ponto que se tem para partida, ou chegada, e tudo é tão expelido de tal forma, que, resta em mim o sono, talvez essa seja mais uma de minhas próprias armadilhas, para que eu pare! Mas o cansaço é só o que abate, quando bate! E que vem tão aos poucos que quando eu, distraído de mim, não consigo perceber... é a dor de mim que está em mim, sempre vasa ao outro de uma forma que é inexplicável ao outro, e até a mim, já que eu para mim é o complexo de todas as coisas que vejo; e que se misturam... eu não posso dizer que eu sou o que escuto, porque na verdade é a visão que me atrapalha mais! E não posso dizer que eu não estou integrado a tudo isso... E eis que tudo é o que sonoramente fica na intergaláxia de mim mesmo! Sabendo que nada mais é o que me ostenta em mim, e sim o que me suprime por entre as palavras da desolação, e da desilusão. Mas, veja bem que, nada disso é tristeza, é sim, um tanto melancólico, mas é algo que supera a própria melancolia, por que; há a alegria aos gritos de quem só sabe viver, vivendo.
E por mais que não se possa dizer mais do que isso, tudo isso é o que me vale, no instante em que sei que um dia toda a minha casa irá ruir, será consumida pelos vermes, porcos, e ratos, ou serão simplesmente incineradas... não sei ainda, não sei qual é bem a diferença..., mas, sei que a diferença é justamente a escolha entre o pairar, e o penetrar; ou o ser consumido lentamente como o que vai ficando também, lentamente, incrustado em tudo o que era o somente o mineral.... O mineral é o grande ser que vive, porque é tão vivo que se finge de morto a vida toda, e fica com todo o resto de quem achava que estava mais vivo, só porque podia andar, falar, e ainda vomitar... É, tudo é o que fica na terra, e na Terra, resta pouco para aqueles que pairam por cima dela....
Porque sim, fatalmente tudo chove. E quando chove, tudo se iguala, nada se perde, não se chove a não ser o que foi de uma vez, anterior, evaporado... e é o vapor que leva o progresso adiante, sempre foi, e nunca deixará de ser, a não ser que tudo seja mesmo o enxofre que vaza do solo... E tudo é o magma que de tão vivo só sabe mesmo é esperar o seu momento... De se derramar, e de tão quente... Devastar. Tudo aquilo que um dia voltará a ser sólido... e tudo isso são as idéias sólidas da sanidade que se escapa por tenra loucura de viver... e somente viver, para que de vida a vida, tudo seja vivo, o bastante! Tudo seja vivo e intermitente para que seja, e apenas seja, o que nasceu para ser, e para morrer!
Ora, e o que é o dó senão aquilo que sentimos quando se vemos que alguém sofre... e não se pode fazer mais nada para que ajudarmos a aliviar... E sim, o que é o sentimento de remorso se não aquele dó que sentimos por algo que nós mesmos fizemos ao outro???
E o que é tudo isso senão a piedade dos Deuses sobre nós??? O que é piedade afinal? Senão é o mesmo que dó??? Ora, piedade é a resignação do dó. É aquilo que crava suas unhas sob o que não é escamas... e tudo é o rato momento de sentir-se, e ver que tudo é feito! E feito está! E não há como escapar de tudo isso, não há dizer que a mais do que o que está feito. E tudo está feito!!! Ora, está, e assim é, a piedade de quem sente, é aquilo que aflige o outro que não é o piedoso, e sim, o pobre coitado de quem sente o que não se sabe mais o que.
Ah, o que resta é a sabedoria, e a voracidade de devorar tudo. O que resta é o tremor de frio, do cão ao meu colo, o que resta é a lua cheia que se esconde por entre as nuvens de uma noite tão infinita, e ínfima quanto todas as outras já passadas pela tela, gigantesca, do cinema da rua da vida, que passa por entre as cenas, e as luzes entre os carros, e prédios, onde tudo é fictício, e real demais ao mesmo tempo. Tudo é o amor. Que escapa. E escapa, ao poucos, como alfinetadas na pele de quem sente o frio de uma noite tão cálida, que tudo é o que se derrama do cálice de vinho, tinto, que é a cor que tinge tudo o que antes era o linho da toalha, branca demais... E tudo o que era demais... Tudo é a areia de Atlântida que me deixa espantado ao simples pensar em sua existência... ah, é Roma que Nero incendiou... e tudo o que é ainda virgem nesta terra... Nesta Terra, que tanto já rodou, para que tudo voltasse a ser o que está ainda mais aterrado, mas submerso e mais forte do que tudo... o fogo, que borbulha em sua consistência de sólido, e com certeza é o que derrama e queima... a todos àqueles que esquecem-se de respirar em meio a tanto.
E tudo é o consolo de em meio a tudo isso, amar, e ser amado... E sem mais nada pedir, porque aí... Tem-se tudo!
Este tudo, que escorre, como o magma, da alma, submersa por baixo de tanta pele, por baixo de tanto mar... é só o sal que queima a pele, que se decompõe ao solo, e que chega ao fogo, consistentemente bruto. De tudo aquilo que era só mais uma de todas, das maiores ilusões... e só o amor. O Amor. Aquilo que nos faz. Aquilo que nos é. É só o Amor! É a Guerra da Terra, o amor, e o rancor... A pele, o solo... o fogo, a sede... o submerso... o fogo sólido do magma do amor... é só o amor!!!
  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 16:10:24

03.09.07

O Vento II

Ora, está mesmo acontecendo tudo agora, e ao mesmo tempo... não há mais nada do que o próprio vento interno que sopra... sopra e sopra sem fim dentro do peito que parece não resistir a tudo o que acontece, mas ainda permanece... e aí soprando; soprando para ver se consegue de fato a fato enxergar algo que não se sabe bem... e bem é tudo isso que está mesmo em tudo o que bate como o lapidar da pedra de diamante que era tão dura e reluzente, mas agora toma forma desconhecida.
E a vida nunca há de deixar de ser aquele brilho que contém... não, não há de ser ofuscada a mais pura das belezas que não cega, e nem a beleza de tão bela... é a feiúra... é tudo tão feio que é belo, e não há como renegar tudo o que está... e tão somente está!
Ah, e não se pode fazer muita coisa a respeito de tudo o que está mesmo agora em qualquer lugar dentro de qualquer peito que é tão uno quanto o daquele que não sabe se ama, ou se amar é assim mesmo! E como seria o amor? Talvez como vento, ou não... não, talvez amar é mesmo sentir o vento e tudo o que leva; e vem dele, e nele... e tão somente sentado, ou em pé, ou em qualquer outra posição, é que se perde tudo o que era sólido demais para não ser tão somente o que se sente. e tudo E sente-se!
E como fazer tudo isso? Não saber é preciso, tudo é uma questão do lapidar latente... e bate à estátua que não é formada senão pelo que há de sopro de vento dentro do peito que se dilacera, ou melhor, sente a brisa de todos os tempos que se misturam. E tudo está tão misturado que é empecilho ou impossível? Separar. Não há como separar; e nem ao menos parar, quando se está em um lugar que não se sabe muito bem, sobre o tudo que é mesmo o tudo que está!
Ora, e qual era a diferença de tudo o que estava, e que agora é mesmo uma coisa mais louca do que a que antes era imaginada??? Ora, não é preciso muita imaginação... é preciso sim; o abrir e o fechar das portas de todos os ventos, que ventam por detrás de tudo o que era tão somente casas bem estruturadas, e feitas para que não houvesse ar!
E quanto falta no ar???? Nada falta no ar, se não tudo o que está sempre a rondar os pensares e os pesares que dele advém..... e tudo vem simplesmente como se fosse a única alternativa de sobrevivência ou início de uma própria vivência, que é tão cruel e boa quanto tudo o que há de mais na vida. De qualquer tolo que não vê! E não vê que tudo isso já é. E sabendo que já é, é mais complicado do que o que não era. E isso é preocupante!
Mas, não há porque preocupar no além das coisas que já são próprias; e completas por si só... e isso é a única resposta que resta dentro de tudo o que está aqui ou ali... e em qualquer lugar, sempre, será... a mesma coisa se não ariscar!
O risco! O risco?: o que afinal risca o quê? Não há risco senão o que é de mais vivo... o que vier é mesmo arriscar, não? Sempre fora... e agora? E agora o que será... senão o risco mais sublime que se pode dar que é asas a tal pássaro que precisa mais do que nunca voar sem que tenha morada certa! Porque a certeza de um lugar é como não voar livre... é como estar preso ao fio da navalha que não corta, mas, não deixa que as pequenas coisas se esguiem... que as penas se multipliquem até chegar ao ponto mais crucial de tudo o que era antes... e antes, era o quê? Não existe antes, e antes era aquilo, e agora é isso... e amanhã será outra coisa! A questão é só essa; e não há mais nada senão isso mesmo que se faz agora. Mas tudo isso é tão confuso que deixa qualquer um assim...
E sabe-se que é mais do que antes era... e isso deve ser suficiente. E agora o que falta? Não falta nada senão mesmo a coragem de ser o que deve ser. E isso é mesmo a dificuldade que se apresenta e que faz com que seja tanto temor, ou tremor, não há como descrever o que é de mais intenso nesse exato momento dentre tantos outros momentos que estão à solta em um rio que corta tudo; tudo deixa... Assim, dividido!
Ah, e se isso tudo for mais do que sempre é? Não há como ser, então não há porque perguntar coisas que ninguém jamais iria perguntar somente para que se possa escapar sempre com alguma pergunta que sim... A propriedade toda é que traz a resposta. Não há mais saídas. Senão a própria saída. E isso e o que devora o pensamento, mas que traz de forma completa o viver em si... e de si, para si! Não há mais perguntas, mas logo surgirão outras que serão respondidas e de forma totalizadora! Então, a preocupação é mesmo o que se chama de: À toa! E no deixar que a vida seja à toa é a grande questão que devora o pensamento, sendo que não há o que pensar... porém viver demanda mesmo uma coragem que não se pode pedir, mas que há... Há de estar em algum lugar perdido dentro de tanto furacão que sopra na exatidão desse momento, em qualquer peito que é frágil demais! E quer muito mais... e isso é sabido, isso é aprendido! E isso é o vivido...
E tudo o que está ficando para trás??? Está para trás e pronto! E não se pode pensar em tudo o que passou porque senão não se vive o que está em vida agora; agora, é só isso!
  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 19:36:14

O Vento I

E tudo que está aqui em qualquer lugar... em qualquer tempo... é sempre a vagueação de ser tudo o que se é; e nada a mais... sempre que, sempre, se adquire mais, e mais de algo que não se sabia antes de tudo começar... e tudo começa pelo início perdido ao lado de algum final que não se sabe muito bem.
Mas o ponto em que se encontra é o ponto em que se é eterno pelos deuses que acompanham todos os passos que são dados. São quase todos o que querem ser, e não o que são? Ora, todos são e isso é uma questão tão delicada quanto estar exposto ao vento...; e venta! Ah, as flores sofrem a implicação de tudo o que está livremente exposto ao céu... ah, é possível ainda libertar o peito de tudo o quer a tristeza, anterior, que já se foi... e que hora ou outra, será outra coisa. Tudo é tão lento e veloz que não se pode dizer sobre a velocidade que está.... então, apenas, está-se tudo o que estava antes. E antes já não é o mesmo antes de agora... existe agora um novo depois. E o depois que se segue é o agora. E tudo vem agora como se fosse a primeira vez que existisse o agora.
E não há mais do que o brilho de um viver que pouco a pouco se torna algo... algo que não foi dito ainda, porque não foi tudo o que poderia ser, mas, está sendo alguma coisa até que essa coisa seja toda e por completa alguma coisa. Até que tudo tenha seu brilho tão incandescente quanto ao sol que cega e mostra tudo o que existe aos olhos que não podem ver se não a luz que permanece... que ofuscou e revelou tudo, o que era antes, o obscuro.
O coração é tão obsceno e obscuro quanto o que há de mais, lido em tudo... não, não existe mais do que o tal do desconhecido de si mesmo — e não sabe. Ninguém jamais saberá até que esteja algo de fato, em fato concreto! Mas, pouco a pouco os fatos se unem e acontecem revelando o que é... e o que não é real, já é outra coisa! E quanta coisa cabe num coração? Muita coisa cabe em todos os corações... mas só o amor que se tem pelo que não se vê é que é a Verdade, que, esconde-se e se revela a pouco, a pouco a cada. Novo passo. E são somente os passos que se trilham em seguimento a tudo o que está ao redor de tudo.
Tudo o que poderia ser; e é... e tudo que não deveria ser; e não é.... ora, tudo está sempre tão se prontificando e pronto que é mesmo um raio de vento de luz que nos transforma em qualquer sensação que pode advir de algo que não se sabe muito bem o que é... e tudo é tão somente o viver que não se pode dizer mais do que está em qualquer lugar. Ah, e tudo isso mostra que não tão somente estamos... e nunca se é sozinho quando se crê. E crendo é que se chega à chegada... e com falta de esperança não se move a planta que poderia ser carregada pelo vento. São todos os homens plantas? Ah, talvez um palheiro por ser tão misto do tudo o que ocorre... e algumas de suas palhas acabam por ficar, outras por partir... mas é tudo palha à palha que não se vê... apenas se sente o vento blowing to some where. E tudo está em qualquer lugar!
E qual é o lugar em que está tudo isso??? No peito, na mente... na vida ... nos pulmões que sempre insistem ... e respiram... respira com tal fervor que não se pode dizer mais do que já foi dito porque não há como explicar o poder de não existir tal poder; e nada mais além de um zero a navegar que está no mar, ou em qualquer rio, que corre em direção a algum lugar que não se sabe bem... e mar é sempre o que não se sabe! Ah, e quem dera que tudo fosse sempre o bem que, soube-se inexistentemente, consciente. E qual é o ponto da consciência que traz tudo isso que está??? Não se sabe, mas o fato é que por isso... é bem. E bem, todos estarão e estão, assim que tudo, for de igual forma disforme; e são todos às palhas.... palheiros!
E venta ... venta.... vento, que traz o cheiro de algo inexplicável porque é sem cheiro.... não se pode cheirar mais do que o sabor de sentir o gosto do vento! E gosto tão sólido que se torna mesmo impiedoso àquele que sente e não pode dizer como é sentir. Sentir é sempre mais do que o dizer é possível. E para que haja tantas palavras é porque ainda existe muito em todo o peito desconhecido, e que pouco a pouco, revela-se, não saber bem nada o que é, ou que era, apenas está em qualquer ponto para que algo seja. Pára, é tão dolorido, quanto prazeroso, sentir tudo isso, de forma totalizadora, mas nunca total...ou quem sabe é a totalidade que será atingida em breve! No breve momento em que tudo será mesmo a brevidade de nascer e morrer no mesmo instante em que se tem a vida!
Ah, e quanta vida cabe em algum lugar que desconhecemos.... ora, desconhecemos. Mas cabe muito. Muito de algo que se teme, e por isso é tão crucial a peregrinação, mas, o querer incessante é tão bom quanto o crer em algo... e o que se tem em qualquer coisa é o que não se sabe. Mas, há ainda tantas outras feridas que impedem que nasçam as flores que talvez sejam somente este o ponto. De cicatrização, até que tudo esteja na forma, que deveria estar. E tudo parece pouco mais do que o muito que está... porque tudo será sempre uma eterna bonança de sentires e um peito que está cravejado, e iluminado, ao mesmo tempo em que um novo algo, broto, brota...
O ímpeto do desejo queima em um corpo que pouco a pouco; sabe-se de tudo o que é, para que seja mais, ou para que deixe de ser algo que era... e era mais do que se pode dizer quando já se foi... e tudo foi de forma tão rata, que não se vê mais, mas viu-se que tudo era mesmo a podridão da coisa que não é poder, mas que está atrelada a tudo isso que não tem nome... e que o corpo sempre será pouco às almas que não se cessam; não cessam... não, agora que parte se tem um princípio, um gosto, de novo. Que fica, e que dá, mais e mais vontade de algo que é tão difícil quanto o que pode ser bom!

  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 19:33:17

04.06.07

Brasília

Brasília é construída na linha do horizonte, Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. Se eu dissesse que Brasília é bonita veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia vêem nisso uma acusação. Mas a minha insônia não é bonita e nem feia, minha insônia sou eu, é o meu espanto. É ponto-e-vírgula. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. Ai que medo – Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu.
Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece pela crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília dica à beira. – Se eu morasse aqui deixaria meus cabelos crescerem até o chão. — Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos que não eram americanos nem suecos e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários viviam cerca de trezentos anos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi a descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos: eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres, menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. — Esperei pela noite como quem espera pelas sombras para poder se esgueirar. Quando a noite veio percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse eu seria vista. O que me apavora é: vista por quem? — foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa; a pior, exatamente a que tem horror de ratos. Essa parte não te, lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construção com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete invisível nos jornais. — Aqui eu tenho medo. — A construção de Brasília: a de um Estado totalitário. — Este grande silêncio visual que eu amo. Também eu, como eles dois são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo, meu Deus? — Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. — É uma praia sem mar. — Em Brasília não há por onde entrar, nem há por onde sair. — Mamãe, está bonito ver você em pé com esse capote branco voando. (É que morri, meu filho.) — Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria para onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. — prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. — Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da natureza. Aqui é o lugar onde meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo aqui pelo o que me assusta em mim. — Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. — Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon... — Se tirassem meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. — Cadê as girafas de Brasília? — Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. — É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. Elas se sentirão tacitamente expulsas. — A alma aqui não faz sombra no chão. — nos primeiros dois dias fiquei sem fome. Tudo me parecia que ia ser comida de avião. — De noite estendi meu rosto para o silêncio. Sei que há uma hora incógnita em que o maná desce e umedece as terras de Brasília. — Por mais perto que se esteja, tudo aqui é visto de longe. Não encontrei um modo de tocar. Mas pelo menos essa vantagem a meu favor: antes de chegar aqui, eu já sabia como tocar de longe. Nunca me desesperei demais: de longe, eu tocava. Tive muito, e nem aquilo que eu toquei, sabe. Mulher rica é assim. É Brasília pura. — A cidade de Brasília fica fora da cidade. — Boys, boys, come here, will you, look who is coming on the street all dressed up in modernistic style. It ain’t nobody but…(Aunt Hangar’s blues, Ted Lewis and his Band, com Jimmy Dorsey na clarineta.) — Essa beleza assustadora, esta cidade, traçada no ar. — Por enquanto não pode nascer samba em Brasília. — Brasília não me deixa ficar cansada. Persegue um pouco. Bem-disposta, bem-disposta, bem-disposta, sinto-me bem. E afinal sempre cultivei meu cansaço, como minha mais rica passividade. — Tudo isso é hoje apenas. Só Deus sabe o que acontecerá em Brasília. É que aqui o acaso é abrupto. — Brasília é mal-assombrada. É o perfil imóvel de uma coisa. — De minha insônia olho pela janela do hotel às três horas da madrugada. Brasília é a paisagem da insônia. Nunca adormece. — Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se. — Eu queria ver espalhadas por Brasília quinhentas mil águias do mais negro ônix. — Brasília é assexuada. — o primeiro instante de ver é como certo instante da embriaguez: os pés não tocam na terra. — como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira começa a querer. E querer é que não pode. Não tem. Será que vai ter? É que não estou vendo onde. — Não me espantaria cruzar com árabes na rua. Árabes antigos e mortos. — Aqui morre minha paixão. E ganho uma lucidez que me deixa grandiosa à toa. Sou fabulosa e inútil, sou de ouro puro. E quase mediúnica. — Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado. E tão pouco secreto, tão bem adequado ao planalto, que ninguém jamais saberá. — Aqui é o lugar onde o espaço mais se parece com o tempo. — Tenho certeza de que aqui é o meu lugar certo. Mas é que a terra me viciou demais. Tenho maus hábitos de vida. — A erosão vai desnudar Brasília até o osso. — O ar religioso que senti desde o primeiro instante, e que neguei. Esta cidade foi conseguida pela prece. Dois homens beatificados pela solidão me criaram aqui de pé, inquieta, sozinha, a esse vento. — Fazem tanta falta cavalos brancos soltos em Brasília. De noite eles seriam verdes ao luar. — Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que também é a idéia que faço da eternidade. Os dois criaram o retrato de uma cidade eterna. — Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado. — Em Brasília estão as crateras da Lua. — A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis.
(continuação nos próximos 7 posts)
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  • Postado em 01:37:42

Brasília

Estive em Brasília em 1962. Escrevi sobre ela o que foi agora mesmo lido. E agora voltei doze anos depois por dois dias. E escrevi também. Aí vai tudo o que eu vomitei.
Atenção: vou começar.
Esta peça é acompanhada pela valsa sangue vienense de Strauss. São onze e vinte da manhã do dia 13.



BRASÍLIA: ESPLENDOR

Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. Também não tem botequim para a gente tomar um cafezinho. É verdade, juro que não vi esquinas. Em Brasília não existe cotidiano. A catedral pede a Deus. São duas mãos abertas para receber. Mas Niemeyer é um irônico: ele ironizou a vida. Ela é sagrada. Brasília não admite diminutivo. Brasília é uma piada estritamente perfeita e sem erros. E a mim só me alva o erro.
A Igreja de São Bosco tem vitrais tão esplêndidos que quedei muda sentada no banco, não acreditando que fosse verdade. Aliás a época que estamos atravessando é fantástica, é azul e amarela, e escarlate e esmeralda. Meu Deus, mas que riqueza. Os vitrais têm luz de música de órgão. Essa igreja tão assim iluminada é no entanto acolhedora. O único defeito é o inusitado lustre redondo que parece coisa de rico-novo. A igreja ficaria pura sem o lustre. Mas que é que se há de fazer? Ir de noite, bem no escuro, roubá-lo?
Depois fui à Biblioteca Nacional. Atendeu-me uma jovem russa que se chama Kira. Vi rapazes e moça estudando e namorando: coisa totalmente compatível. E louvável, é claro.
Paro um instante para dizer que Brasília é uma quadra de tênis.
Faz á um friozinho revigorante. Que fome, mas que fome. Perguntei se havia muito crime na cidade. Disseram-me que no satélite de Grama (é mesmo este o nome?) há uns três homicídios por semana. (Interrompi os crimes para comer.) A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos escuros no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. Embora haja ar sem poluição: respira-se bem, um pouco bem demais, o nariz seco.
Brasília nua me deixa beatificada. E doida. Em Brasília tenho que pensar entre parênteses. Me prendem por viver? É isso mesmo.
Eu não passo de frases ouvidas por acaso. Na rua, ao atravessar o trânsito, ouvi assim: “Foi por necessidade”. E no cinema Roxy, no Rio de Janeiro, ouvi duas mulheres gordas dizerem: “De manhã ela dormia e de noite acordava.” “Ela não tem resistência física.” Em Brasília tenho resistência física, enquanto que no Rio sou meio mole, meio doce. E ouvi a frase seguinte das mesmas mulheres gordas que eram baixas: “Que é que ela tem que fazer lá?” E foi assim, minha gente, que fui expulsa.
Brasília tem euforia no ar. Eu disse para o chofer de táxi amarelo: hoje parece segunda-feira, não é? “É”, respondeu ele. E nada mais foi dito. Eu queria tanto dizer a ele que estive na adoradíssima Brasília. Mas ele não quis saber. Às vezes sobro.
Então fui ao dentista, ouvi, Brasília? Eu me cuido. Devo ler revista odontológica só porque estou na sala de espera do dentista? Depois que sentei na magnífica cadeira de morte do dentista, cadeira elétrica, e vi uma máquina me olhando, chamada Atlante 200. Olhou foi à toa, porque eu não tinha cárie. Brasília não tem cárie. É terra forte, essa. E não é brincadeira. Joga alto e é para ganhar. Eu e Merquior demos grandes gargalhadas que ainda me ressoam no Rio. Fui irremediavelmente impregnada por Brasília.
Prefiro o entrelaçamento carioca. Fui delicadamente acarinhada em Brasília mas morri de medo de ler a minha palestra. (Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.) Eu me meto em cada uma, que vou te contar. Mas é bom porque é arriscado. Acreditem ou não: enquanto eu lia as palavras, eu por dentro rezava. Mas, de novo, é bom por ser arriscado. Agora me pergunto: se não há esquinas, onde ficam as prostitutas de pé fumando? Ficam sentadas no chão? E os mendigos? Têm carro? Pois se pode andar de carro lá.
A luz de Brasília leva à vezes ao êxtase e à plenitude total. Mas também é agressiva e dura — ah, como eu gostaria da sombra de uma árvore. Brasília tem árvores. Mas ainda não convencem. Parecem de plástico.
Vou escrever uma coisa da maior importância: Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada. É linda e é nua. Despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável. Aliás Brasília é implacável. Senti-me como se alguém me apontasse com o dedo: como se pudessem me prender ou tirar meus documentos, a minha identidade, a minha veracidade, e o meu último hálito íntimo. Ai se a radiopatruplha me pega me sova! Aí eu lhes digo a pior palavras da língua portuguesa: sovaco. E eles caem mortos. Mas para ti, meu amor, sou mais delicada e digo baixinho: axilas...
Brasília tem cheiro de pasta de dentes. E quem não é casado, ama sem paixão. Simplesmente transa sexo. Mas quero sobretudo conversar com os universitários. Quero que eles me convidem para participar dessa aridez luminosa e cheia de estrelas. Será que alguém morre em Brasília? Não. Nunca. Nunca alguém morre porque lá não se pode fechar os olhos. Lá há hibernação: o ar deixa uma pessoa entorpecida durante anos, uma pessoa que depois vive de novo. O clima é desafiador e chicoteia um pouco a gente. Mas falta magia em Brasília, falta macumba. Não quero que Brasília me rogue praga: pois pega. Rezo. Rezo muito. Ai que Deus bom. Tudo lá é às claras e quem quiser se vire. Embora os ratos adorem a cidade. Qual será a comida deles? Ah, já sei: eles comem carne humana. Escapei como pude. E parecia teleguiada.

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  • Postado em 01:34:29