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E tudo que está aqui em qualquer lugar... em qualquer tempo... é sempre a vagueação de ser tudo o que se é; e nada a mais... sempre que, sempre, se adquire mais, e mais de algo que não se sabia antes de tudo começar... e tudo começa pelo início perdido ao lado de algum final que não se sabe muito bem.
Mas o ponto em que se encontra é o ponto em que se é eterno pelos deuses que acompanham todos os passos que são dados. São quase todos o que querem ser, e não o que são? Ora, todos são e isso é uma questão tão delicada quanto estar exposto ao vento...; e venta! Ah, as flores sofrem a implicação de tudo o que está livremente exposto ao céu... ah, é possível ainda libertar o peito de tudo o quer a tristeza, anterior, que já se foi... e que hora ou outra, será outra coisa. Tudo é tão lento e veloz que não se pode dizer sobre a velocidade que está.... então, apenas, está-se tudo o que estava antes. E antes já não é o mesmo antes de agora... existe agora um novo depois. E o depois que se segue é o agora. E tudo vem agora como se fosse a primeira vez que existisse o agora.
E não há mais do que o brilho de um viver que pouco a pouco se torna algo... algo que não foi dito ainda, porque não foi tudo o que poderia ser, mas, está sendo alguma coisa até que essa coisa seja toda e por completa alguma coisa. Até que tudo tenha seu brilho tão incandescente quanto ao sol que cega e mostra tudo o que existe aos olhos que não podem ver se não a luz que permanece... que ofuscou e revelou tudo, o que era antes, o obscuro.
O coração é tão obsceno e obscuro quanto o que há de mais, lido em tudo... não, não existe mais do que o tal do desconhecido de si mesmo — e não sabe. Ninguém jamais saberá até que esteja algo de fato, em fato concreto! Mas, pouco a pouco os fatos se unem e acontecem revelando o que é... e o que não é real, já é outra coisa! E quanta coisa cabe num coração? Muita coisa cabe em todos os corações... mas só o amor que se tem pelo que não se vê é que é a Verdade, que, esconde-se e se revela a pouco, a pouco a cada. Novo passo. E são somente os passos que se trilham em seguimento a tudo o que está ao redor de tudo.
Tudo o que poderia ser; e é... e tudo que não deveria ser; e não é.... ora, tudo está sempre tão se prontificando e pronto que é mesmo um raio de vento de luz que nos transforma em qualquer sensação que pode advir de algo que não se sabe muito bem o que é... e tudo é tão somente o viver que não se pode dizer mais do que está em qualquer lugar. Ah, e tudo isso mostra que não tão somente estamos... e nunca se é sozinho quando se crê. E crendo é que se chega à chegada... e com falta de esperança não se move a planta que poderia ser carregada pelo vento. São todos os homens plantas? Ah, talvez um palheiro por ser tão misto do tudo o que ocorre... e algumas de suas palhas acabam por ficar, outras por partir... mas é tudo palha à palha que não se vê... apenas se sente o vento blowing to some where. E tudo está em qualquer lugar!
E qual é o lugar em que está tudo isso??? No peito, na mente... na vida ... nos pulmões que sempre insistem ... e respiram... respira com tal fervor que não se pode dizer mais do que já foi dito porque não há como explicar o poder de não existir tal poder; e nada mais além de um zero a navegar que está no mar, ou em qualquer rio, que corre em direção a algum lugar que não se sabe bem... e mar é sempre o que não se sabe! Ah, e quem dera que tudo fosse sempre o bem que, soube-se inexistentemente, consciente. E qual é o ponto da consciência que traz tudo isso que está??? Não se sabe, mas o fato é que por isso... é bem. E bem, todos estarão e estão, assim que tudo, for de igual forma disforme; e são todos às palhas.... palheiros!
E venta ... venta.... vento, que traz o cheiro de algo inexplicável porque é sem cheiro.... não se pode cheirar mais do que o sabor de sentir o gosto do vento! E gosto tão sólido que se torna mesmo impiedoso àquele que sente e não pode dizer como é sentir. Sentir é sempre mais do que o dizer é possível. E para que haja tantas palavras é porque ainda existe muito em todo o peito desconhecido, e que pouco a pouco, revela-se, não saber bem nada o que é, ou que era, apenas está em qualquer ponto para que algo seja. Pára, é tão dolorido, quanto prazeroso, sentir tudo isso, de forma totalizadora, mas nunca total...ou quem sabe é a totalidade que será atingida em breve! No breve momento em que tudo será mesmo a brevidade de nascer e morrer no mesmo instante em que se tem a vida!
Ah, e quanta vida cabe em algum lugar que desconhecemos.... ora, desconhecemos. Mas cabe muito. Muito de algo que se teme, e por isso é tão crucial a peregrinação, mas, o querer incessante é tão bom quanto o crer em algo... e o que se tem em qualquer coisa é o que não se sabe. Mas, há ainda tantas outras feridas que impedem que nasçam as flores que talvez sejam somente este o ponto. De cicatrização, até que tudo esteja na forma, que deveria estar. E tudo parece pouco mais do que o muito que está... porque tudo será sempre uma eterna bonança de sentires e um peito que está cravejado, e iluminado, ao mesmo tempo em que um novo algo, broto, brota...
O ímpeto do desejo queima em um corpo que pouco a pouco; sabe-se de tudo o que é, para que seja mais, ou para que deixe de ser algo que era... e era mais do que se pode dizer quando já se foi... e tudo foi de forma tão rata, que não se vê mais, mas viu-se que tudo era mesmo a podridão da coisa que não é poder, mas que está atrelada a tudo isso que não tem nome... e que o corpo sempre será pouco às almas que não se cessam; não cessam... não, agora que parte se tem um princípio, um gosto, de novo. Que fica, e que dá, mais e mais vontade de algo que é tão difícil quanto o que pode ser bom!
Estive em Brasília em 1962. Escrevi sobre ela o que foi agora mesmo lido. E agora voltei doze anos depois por dois dias. E escrevi também. Aí vai tudo o que eu vomitei.
Atenção: vou começar.
Esta peça é acompanhada pela valsa sangue vienense de Strauss. São onze e vinte da manhã do dia 13.
BRASÍLIA: ESPLENDOR
Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. Também não tem botequim para a gente tomar um cafezinho. É verdade, juro que não vi esquinas. Em Brasília não existe cotidiano. A catedral pede a Deus. São duas mãos abertas para receber. Mas Niemeyer é um irônico: ele ironizou a vida. Ela é sagrada. Brasília não admite diminutivo. Brasília é uma piada estritamente perfeita e sem erros. E a mim só me alva o erro.
A Igreja de São Bosco tem vitrais tão esplêndidos que quedei muda sentada no banco, não acreditando que fosse verdade. Aliás a época que estamos atravessando é fantástica, é azul e amarela, e escarlate e esmeralda. Meu Deus, mas que riqueza. Os vitrais têm luz de música de órgão. Essa igreja tão assim iluminada é no entanto acolhedora. O único defeito é o inusitado lustre redondo que parece coisa de rico-novo. A igreja ficaria pura sem o lustre. Mas que é que se há de fazer? Ir de noite, bem no escuro, roubá-lo?
Depois fui à Biblioteca Nacional. Atendeu-me uma jovem russa que se chama Kira. Vi rapazes e moça estudando e namorando: coisa totalmente compatível. E louvável, é claro.
Paro um instante para dizer que Brasília é uma quadra de tênis.
Faz á um friozinho revigorante. Que fome, mas que fome. Perguntei se havia muito crime na cidade. Disseram-me que no satélite de Grama (é mesmo este o nome?) há uns três homicídios por semana. (Interrompi os crimes para comer.) A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos escuros no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. Embora haja ar sem poluição: respira-se bem, um pouco bem demais, o nariz seco.
Brasília nua me deixa beatificada. E doida. Em Brasília tenho que pensar entre parênteses. Me prendem por viver? É isso mesmo.
Eu não passo de frases ouvidas por acaso. Na rua, ao atravessar o trânsito, ouvi assim: “Foi por necessidade”. E no cinema Roxy, no Rio de Janeiro, ouvi duas mulheres gordas dizerem: “De manhã ela dormia e de noite acordava.” “Ela não tem resistência física.” Em Brasília tenho resistência física, enquanto que no Rio sou meio mole, meio doce. E ouvi a frase seguinte das mesmas mulheres gordas que eram baixas: “Que é que ela tem que fazer lá?” E foi assim, minha gente, que fui expulsa.
Brasília tem euforia no ar. Eu disse para o chofer de táxi amarelo: hoje parece segunda-feira, não é? “É”, respondeu ele. E nada mais foi dito. Eu queria tanto dizer a ele que estive na adoradíssima Brasília. Mas ele não quis saber. Às vezes sobro.
Então fui ao dentista, ouvi, Brasília? Eu me cuido. Devo ler revista odontológica só porque estou na sala de espera do dentista? Depois que sentei na magnífica cadeira de morte do dentista, cadeira elétrica, e vi uma máquina me olhando, chamada Atlante 200. Olhou foi à toa, porque eu não tinha cárie. Brasília não tem cárie. É terra forte, essa. E não é brincadeira. Joga alto e é para ganhar. Eu e Merquior demos grandes gargalhadas que ainda me ressoam no Rio. Fui irremediavelmente impregnada por Brasília.
Prefiro o entrelaçamento carioca. Fui delicadamente acarinhada em Brasília mas morri de medo de ler a minha palestra. (Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.) Eu me meto em cada uma, que vou te contar. Mas é bom porque é arriscado. Acreditem ou não: enquanto eu lia as palavras, eu por dentro rezava. Mas, de novo, é bom por ser arriscado. Agora me pergunto: se não há esquinas, onde ficam as prostitutas de pé fumando? Ficam sentadas no chão? E os mendigos? Têm carro? Pois se pode andar de carro lá.
A luz de Brasília leva à vezes ao êxtase e à plenitude total. Mas também é agressiva e dura — ah, como eu gostaria da sombra de uma árvore. Brasília tem árvores. Mas ainda não convencem. Parecem de plástico.
Vou escrever uma coisa da maior importância: Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada. É linda e é nua. Despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável. Aliás Brasília é implacável. Senti-me como se alguém me apontasse com o dedo: como se pudessem me prender ou tirar meus documentos, a minha identidade, a minha veracidade, e o meu último hálito íntimo. Ai se a radiopatruplha me pega me sova! Aí eu lhes digo a pior palavras da língua portuguesa: sovaco. E eles caem mortos. Mas para ti, meu amor, sou mais delicada e digo baixinho: axilas...
Brasília tem cheiro de pasta de dentes. E quem não é casado, ama sem paixão. Simplesmente transa sexo. Mas quero sobretudo conversar com os universitários. Quero que eles me convidem para participar dessa aridez luminosa e cheia de estrelas. Será que alguém morre em Brasília? Não. Nunca. Nunca alguém morre porque lá não se pode fechar os olhos. Lá há hibernação: o ar deixa uma pessoa entorpecida durante anos, uma pessoa que depois vive de novo. O clima é desafiador e chicoteia um pouco a gente. Mas falta magia em Brasília, falta macumba. Não quero que Brasília me rogue praga: pois pega. Rezo. Rezo muito. Ai que Deus bom. Tudo lá é às claras e quem quiser se vire. Embora os ratos adorem a cidade. Qual será a comida deles? Ah, já sei: eles comem carne humana. Escapei como pude. E parecia teleguiada.