Rainha de Espadas

I have a tale to tell. Sometimes it gets so hard to hide it well. I was not ready for the fall Too blind to see the writing on the wall. A man can tell a thousand lies I've learned my lesson well. Hope I live to tell the secret I have learn

Rainha de Espadas

I have a tale to tell. Sometimes it gets so hard to hide it well. I was not ready for the fall Too blind to see the writing on the wall. A man can tell a thousand lies I've learned my lesson well. Hope I live to tell the secret I have learn
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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2007

04.06.07

Brasília V

Às sete horas da noite falarei só por alto da vanguarda literária brasileira, já que não sou crítica. Deus me livre de criticar. Tenho um medo seco de enfrentar pessoas que me ouvem. Eletrizada. Aliás Brasília é eletrizada e é computador. Com certeza vou ler depressa demais pra acabar logo. Vou ser apresentada à audiência por José Gulherme Merquior. Merquior é sadio demais. Fico honrada e ao mesmo tempo tão humilde. Afinal, quem sou eu para enfrentar um público exigente? Farei o que puder. Uma vez fiz uma palestra na PUC e Affonso Romano de Sant’Anna, não sei que diabo lhe deu a esse ótimo crítico, me fez uma pergunta: dois e dois são cinco? Por um segundo fiquei atônita. Mas me ocorreu logo uma anedota de humor negro: É assim: o psicótico diz que dois e dois são cinco. O neurótico diz: dois e dois são quatro mas eu simplesmente não agüento. Houve então sorrisos e relaxamento.
Amanhã volto para o Rio, cidade turbulenta de meus amores. Gosto de viajar de avião: amo a velocidade. Com seu Vicente consegui que corresse em Brasília bem depressa com o carro. Sentei-me ao lado dele e conversamos muito. Até logo mais: vou ler enquanto espero que venham me buscar para a conferência. Em Brasília dá vontade de ser bonita. Tive vontade de me enfeitar. Brasília é arriscada e eu amo o risco. É uma aventura: me deixa face a face com o desconhecido. Vou dizer palavras. As palavras nada têm a ver com as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas. Brasília humanizou-se. Só que não agüento essas ruas redondas, essa falta vital de esquinas. Lá, mesmo o céu é redondo. As nuvens são agnus dei. Brasília tem o ar tão seco que a pele do rosto fica seca, as mãos ásperas.
A máquina do dentista chamada Atlate 200 fala assim comigo: tchi! tchi! tchi! Hoje é dia 14. Quatorze me deixa suspensa. Brasília é quinze vírgula um. O Rio é um, mas unzinho. Atlante 200 não morre? Não, não morre. É como eu quando estou hibernada em Brasília.
Brasília é guindaste alaranjado pescando coisa muito delicada: um pequeno ovo branco. Esse ovo branco sou eu ou uma criancinha que nasce hoje?
Sinto que estão fazendo macumba contra mim: quem quer roubar a minha pobre identidade? Só faço o seguinte: peço socorro e bebo um cafezinho. Depois eu fumo. Como e quanto fumei em Brasília! Brasília é cigarro Hollywood com filtro. Brasília é assim: ouço neste instante o ruído da chave na fechadura da porta de entrada e de saída. Mistério? mistério, sim senhor. Vou abrir e sabe quem era? era ninguém. Brasília é alguém, tapete vermelho, fraque e cartola.
Brasília é uma tesoura de aço puro. Economizo quanto posso para o dinheiro dar. E já fiz o meu testamento. Digo nele um bocado de coisas.
Brasília é barulho de gelinho no copo de whisky, às seis horas da tarde, hora de ninguém.
Querem que eu diga a Brasília: viva? Digo viva com o copo na mão. No Rio, na copa de minha casa, matei um mosquito que tremulava no ar. Por que esse direito de matar? Ele era apenas um átomo voando. Nunca mais vou esquecer esse mosquito cujo destino eu tracei, eu, a sem destino.
Estou cansada, ouvindo de madrugada a Ministério da Educação que também é de Brasília. No momento ouço o Danúbio azul em cujas águas me debruço séria e atenta.
Brasília é ficção científica. Brasília é Ceará ao avesso: ambos contundentes e conquistadores.
E é coro infantil em manhã azulíssima e supergelada, os meninos abrindo as boquinha redondas e entoando um Te Deum todo inocente, acompanhado de música de órgão. Quero que isso aconteça na igreja dos vitrais às 7 horas da noite. Ou às 7 horas da manhã. Prefiro de manhã, se bem que o crepúsculo em Brasília seja ainda mais bonito que o pôr-do-sol involuntário de Porto Alegre. Brasília é um primeiro lugar no vestibular. Eu já fico contente com um segundinho segundo lugar.
Vejo que escrevi sete em número: 7. Pois Brasília é 7. É 3. É quatro. É oito, nove — pulo os outros, e no 13 me encontro com Deus.
O problema é que o papel branco exige que eu escreva. Vou e escrevo. Sozinha no mundo, no alto de um morro. Eu queria ser regente musical, mas diz que mulher não pode ser por não ter resistência física. Ah, Schubert, adoce um pouco Brasília. Eu sou tão boa para Brasília.
Neste instante-já são dez para sete. Me muero. A casa é sua, meu senhor, e o serviço que lhe dou é serviço é serviço de luxo. Aproveite quem quiser. Brasília é uma nota de quinhentos cruzeiros que ninguém quer trocar. E o centavo número 1? esse é reivindico para mim. É tão raro. Dá boa sorte. E dá privilégio. Quinhentos cruzeiros me atravessam a garganta.
Brasília é diferente. Brasília convida. E se me convidam, eu atendo. Brasília usa piteira com brilhantes.
Mas é um lugar-comum dizerem: quero dinheiro e quero morrer de repente. Mesmo eu. Mas São Francisco tirou toda a roupa e ficou nu. Ele e meu cachorro Ulisses nada pedem. Brasília é um pacto que fiz com Deus.
Só peço um favor, Brasília, de você: não entre numa de falar esperanto. Não vê que as palavras ficam deturpadas em esperanto como em tradução mal traduzida? Yes, my Lord. I said yes, sir. I almost said: my love, em vez de my Lord. But my love is my Lord. There is no answer? O.K., I can stand it. Mas como dói. Dói muito ser ofendida por uma falta de resposta. Agüento. Mas não me pisem nos pés porque dói. E sou familiar, eu sou você, não faça cerimônia. Vai ser assim: eu o trato de senhor doutor e você me trata de tu. Você é tão galante, Brasília.
Brasília tem Jardim Botânico? e tem Jardim Zoológico? Faz falta, porque não é só de gente que vive o homem. Ter bicho é essencial.
Cadê a tua trágica ópera, Brasília? Opereta eu não aceito, é nostálgica demais, é soldadinho de chumbo que eu, embora menina, brinquei com. O blue me estraçalha mansamente o coração que n entanto é tão quente como o próprio blue.
Brasília é lei física. Relaxe-se, minha senhora, tire a cinta, não se afobe, tome um golinho de água com açúcar — e então experimente ser um pouco a lei natural. A senhora vai se deleitar.
Existe por acaso uma matéria de estudo chamada matéria da existência do tempo? Pois devia existir.
Pois não é que passaram água oxigenada no chão de Brasília. Pois passaram: para desinfectar. Mas eu sou, graças a Deus, bem infectada. Mas fiz radiografia dos pulmões e disse o médico: meus pulmões devem estar pretos de fumaça. Ele respondeu: pois até que não, estão clarinhos.
E assim vai se indo. Estou de repente muda e sem assunto. Respeitem o meu silêncio. Eu não pinto, não senhora, eu escrevo e quanto.
  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 01:27:05

Brasília VI

Em Brasília não sonhei. Será culpa minha ou em Brasília não se sonha? E a camareira? que foi feito dela? Eu também já sofri, ouviu, mulher-camareira? Sofrimento é privilégio dos que sentem. Mas agora estou pura alegria. São quase seis horas da manhã. Acordei às quatro da madrugada. Estou alerta. Brasília é alerta. Prestem atenção ao que digo: Brasília não vai terminar nunca. Eu morro e Brasília permanece. Com nova gente, é claro. Brasília é novinha em folha.
Brasília é marcha nupcial. O noivo é um nordestino que come o bolo inteiro porque está com fome há várias gerações. A noiva é uma velha senhora viúva, rica e rabugenta. Deste insólito casamento que assisti, forçada pelas circunstâncias, aí derrotada pela violência da marcha nupcial que parece marcha militar e que me mandou me casar também e eu não quero. Saí cheia de band-aids, com o tornozelo torcido, a nuca doendo e uma grande ferida me doendo no coração.
Tudo o que eu disse é verdade. Ou é simbólico. Mas que sintaxe difícil Brasília tem! A cartomante disse que eu iria a Brasília. Ela sabe de tudo, dona Nadir, do Méier. Brasília é pálpebra batendo que nem borboleta amarela que um dia desses vi na esquina de minha casa. Borboleta amarela é bom augúrio. Lagartixa não diz sim nem não. Mas S. tem um medo de lagartixa que se pela. Eu tenho mais medo é de ratos. No Hotel Nacional me garantiram que não tinha rato. Aí, então, fiquei. Com garantia, fico muito.
Trabalhar é sina. Olha, Jornal de Brasília, inclua astrologia nos seus planos. Afinal a gente tem que saber a quantas anda. Sou toda mágica e minha aura é azul forte que nem os doces vitrais da igreja que falei. Tudo em que eu toco, nasce.
Amanhece aqui no Rio. Uma bela e fria manhã seca. Que bom que todas as noites tenham manhãs radiosas. O horóscopo de Brasília é fulgente. E quem quiser, que agüente.
São quinze para as seis. Escrevo ouvindo música. Qualquer uma serve, não crio problemas. Eu agora queria era ouvir um fado bem adstringente cantado por Amália Rodrigues em Lisboa. Ah que saudade de Capri. Sofri tanto em Capri. Mas perdoei. Não faz mal: Capri, como Brasília, é linda. Estou é com pena de Brasília porque ela não tem mar. Mas há maresia no ar. Banho de piscina eu desprezo. Banho de mar dá coragem. Um dia desses fui à praia e entrei no mar com emoção. Bebi sete goles de água salgada do mar. A água estava friazinha, delicada, de ondinhas que também eram agnus dei. Aviso que vou comprar um chapéu de feltro no estilo antigo, com copa pequena de abas viradas. E também um xale verde de crochê. Brasília não é crochê, é tricô feito por máquinas especializadas que não erram. Mas, como eu disse, sou erro puro. E tenho alma canhota. Me enrolo toda no crochê verde-esmeralda, me enrolo toda. Para me proteger. Verde é a cor da esperança. E terça-feira pode ser um desastre. Em minha última terça-feira chorei porque fui ofendida. Mas em geral terça-feira é bom. Quanto à quinta-feira, é doce e um pouquinho triste. Ride, palhaço, enquanto a casa pega fogo. Mas tout va très bien, madame la Marquise. Só que.
Será que em Brasília tem faunos? Está resolvido: compro é chapéu verde para combinar com o meu xale. Ou não compro nenhum? sou tão indecisa. Brasília é decisão. Brasília é homem: E eu, tão mulher. Vou andando às trambolhadas. Esbarro aqui, esbarro ali. E chego enfim.
A música que estou ouvindo agora é toda pura e sem culpa. Debussy. Com ondinhas frescas do mar.
Brasília tem gnomos?
A minha casa no Rio está cheia deles. Todos fantásticos. Experimente um só gnomo e você fica viciado. Duende também serve. Anão? tenho pena.
Já resolvi: não preciso de chapéu nenhum. Ou preciso? Meu Deus, que será de mim? Brasília, me salve que estou precisando.
Um dia eu era criança que nem Brasília. E queria tanto um pombo-correio. Pra mandar carta para Brasília. Recebem? sim ou não?
Sou inocente e ignorante. E quando estou em estado de escrever, não leio. Seria demais para mim, não tenho força.
No avião viajei com um senhor português, comerciante não sei de quê, mas que foi muito delicado: segurou minha maleta pesada. Na volta de Brasília viajei com um senhor que conversou comigo tão bem, uma conversa tão boa, que eu disse: é incrível como o tempo passou depressa e já chegamos. Ele disse: para mim o tempo também passou depressa. Este homem um dia encontrarei. Ele vai me ensinar. Sabe de muita coisa.
Estou perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu.
Estamos em plena copa do mundo. Tem um país africano que é pobre e ignorante e perdeu da Iugoslávia de nove a zero. Mas a ignorância é outra: ouvi dizer que nesse país ou os rapazes pretos ganham ou morrem. Que falta de socorro.
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada. Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.

  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 01:24:09