| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | ||||
| 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 |
| 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 |
| 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 | 24 |
| 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
Em Brasília não sonhei. Será culpa minha ou em Brasília não se sonha? E a camareira? que foi feito dela? Eu também já sofri, ouviu, mulher-camareira? Sofrimento é privilégio dos que sentem. Mas agora estou pura alegria. São quase seis horas da manhã. Acordei às quatro da madrugada. Estou alerta. Brasília é alerta. Prestem atenção ao que digo: Brasília não vai terminar nunca. Eu morro e Brasília permanece. Com nova gente, é claro. Brasília é novinha em folha.
Brasília é marcha nupcial. O noivo é um nordestino que come o bolo inteiro porque está com fome há várias gerações. A noiva é uma velha senhora viúva, rica e rabugenta. Deste insólito casamento que assisti, forçada pelas circunstâncias, aí derrotada pela violência da marcha nupcial que parece marcha militar e que me mandou me casar também e eu não quero. Saí cheia de band-aids, com o tornozelo torcido, a nuca doendo e uma grande ferida me doendo no coração.
Tudo o que eu disse é verdade. Ou é simbólico. Mas que sintaxe difícil Brasília tem! A cartomante disse que eu iria a Brasília. Ela sabe de tudo, dona Nadir, do Méier. Brasília é pálpebra batendo que nem borboleta amarela que um dia desses vi na esquina de minha casa. Borboleta amarela é bom augúrio. Lagartixa não diz sim nem não. Mas S. tem um medo de lagartixa que se pela. Eu tenho mais medo é de ratos. No Hotel Nacional me garantiram que não tinha rato. Aí, então, fiquei. Com garantia, fico muito.
Trabalhar é sina. Olha, Jornal de Brasília, inclua astrologia nos seus planos. Afinal a gente tem que saber a quantas anda. Sou toda mágica e minha aura é azul forte que nem os doces vitrais da igreja que falei. Tudo em que eu toco, nasce.
Amanhece aqui no Rio. Uma bela e fria manhã seca. Que bom que todas as noites tenham manhãs radiosas. O horóscopo de Brasília é fulgente. E quem quiser, que agüente.
São quinze para as seis. Escrevo ouvindo música. Qualquer uma serve, não crio problemas. Eu agora queria era ouvir um fado bem adstringente cantado por Amália Rodrigues em Lisboa. Ah que saudade de Capri. Sofri tanto em Capri. Mas perdoei. Não faz mal: Capri, como Brasília, é linda. Estou é com pena de Brasília porque ela não tem mar. Mas há maresia no ar. Banho de piscina eu desprezo. Banho de mar dá coragem. Um dia desses fui à praia e entrei no mar com emoção. Bebi sete goles de água salgada do mar. A água estava friazinha, delicada, de ondinhas que também eram agnus dei. Aviso que vou comprar um chapéu de feltro no estilo antigo, com copa pequena de abas viradas. E também um xale verde de crochê. Brasília não é crochê, é tricô feito por máquinas especializadas que não erram. Mas, como eu disse, sou erro puro. E tenho alma canhota. Me enrolo toda no crochê verde-esmeralda, me enrolo toda. Para me proteger. Verde é a cor da esperança. E terça-feira pode ser um desastre. Em minha última terça-feira chorei porque fui ofendida. Mas em geral terça-feira é bom. Quanto à quinta-feira, é doce e um pouquinho triste. Ride, palhaço, enquanto a casa pega fogo. Mas tout va très bien, madame la Marquise. Só que.
Será que em Brasília tem faunos? Está resolvido: compro é chapéu verde para combinar com o meu xale. Ou não compro nenhum? sou tão indecisa. Brasília é decisão. Brasília é homem: E eu, tão mulher. Vou andando às trambolhadas. Esbarro aqui, esbarro ali. E chego enfim.
A música que estou ouvindo agora é toda pura e sem culpa. Debussy. Com ondinhas frescas do mar.
Brasília tem gnomos?
A minha casa no Rio está cheia deles. Todos fantásticos. Experimente um só gnomo e você fica viciado. Duende também serve. Anão? tenho pena.
Já resolvi: não preciso de chapéu nenhum. Ou preciso? Meu Deus, que será de mim? Brasília, me salve que estou precisando.
Um dia eu era criança que nem Brasília. E queria tanto um pombo-correio. Pra mandar carta para Brasília. Recebem? sim ou não?
Sou inocente e ignorante. E quando estou em estado de escrever, não leio. Seria demais para mim, não tenho força.
No avião viajei com um senhor português, comerciante não sei de quê, mas que foi muito delicado: segurou minha maleta pesada. Na volta de Brasília viajei com um senhor que conversou comigo tão bem, uma conversa tão boa, que eu disse: é incrível como o tempo passou depressa e já chegamos. Ele disse: para mim o tempo também passou depressa. Este homem um dia encontrarei. Ele vai me ensinar. Sabe de muita coisa.
Estou perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu.
Estamos em plena copa do mundo. Tem um país africano que é pobre e ignorante e perdeu da Iugoslávia de nove a zero. Mas a ignorância é outra: ouvi dizer que nesse país ou os rapazes pretos ganham ou morrem. Que falta de socorro.
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada. Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.