Rainha de Espadas

I have a tale to tell. Sometimes it gets so hard to hide it well. I was not ready for the fall Too blind to see the writing on the wall. A man can tell a thousand lies I've learned my lesson well. Hope I live to tell the secret I have learn

Rainha de Espadas

I have a tale to tell. Sometimes it gets so hard to hide it well. I was not ready for the fall Too blind to see the writing on the wall. A man can tell a thousand lies I've learned my lesson well. Hope I live to tell the secret I have learn
<  Junho 2007  >
S T Q Q S S D
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30  
Buscar
Receba os posts
Terra Blog

Arquivo de: Junho 2007, 04

04.06.07

Brasília

Brasília é construída na linha do horizonte, Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. Se eu dissesse que Brasília é bonita veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia vêem nisso uma acusação. Mas a minha insônia não é bonita e nem feia, minha insônia sou eu, é o meu espanto. É ponto-e-vírgula. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. Ai que medo – Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu.
Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece pela crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília dica à beira. – Se eu morasse aqui deixaria meus cabelos crescerem até o chão. — Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos que não eram americanos nem suecos e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários viviam cerca de trezentos anos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi a descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos: eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres, menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. — Esperei pela noite como quem espera pelas sombras para poder se esgueirar. Quando a noite veio percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse eu seria vista. O que me apavora é: vista por quem? — foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa; a pior, exatamente a que tem horror de ratos. Essa parte não te, lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construção com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete invisível nos jornais. — Aqui eu tenho medo. — A construção de Brasília: a de um Estado totalitário. — Este grande silêncio visual que eu amo. Também eu, como eles dois são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo, meu Deus? — Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. — É uma praia sem mar. — Em Brasília não há por onde entrar, nem há por onde sair. — Mamãe, está bonito ver você em pé com esse capote branco voando. (É que morri, meu filho.) — Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria para onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. — prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. — Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da natureza. Aqui é o lugar onde meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo aqui pelo o que me assusta em mim. — Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. — Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon... — Se tirassem meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. — Cadê as girafas de Brasília? — Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. — É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. Elas se sentirão tacitamente expulsas. — A alma aqui não faz sombra no chão. — nos primeiros dois dias fiquei sem fome. Tudo me parecia que ia ser comida de avião. — De noite estendi meu rosto para o silêncio. Sei que há uma hora incógnita em que o maná desce e umedece as terras de Brasília. — Por mais perto que se esteja, tudo aqui é visto de longe. Não encontrei um modo de tocar. Mas pelo menos essa vantagem a meu favor: antes de chegar aqui, eu já sabia como tocar de longe. Nunca me desesperei demais: de longe, eu tocava. Tive muito, e nem aquilo que eu toquei, sabe. Mulher rica é assim. É Brasília pura. — A cidade de Brasília fica fora da cidade. — Boys, boys, come here, will you, look who is coming on the street all dressed up in modernistic style. It ain’t nobody but…(Aunt Hangar’s blues, Ted Lewis and his Band, com Jimmy Dorsey na clarineta.) — Essa beleza assustadora, esta cidade, traçada no ar. — Por enquanto não pode nascer samba em Brasília. — Brasília não me deixa ficar cansada. Persegue um pouco. Bem-disposta, bem-disposta, bem-disposta, sinto-me bem. E afinal sempre cultivei meu cansaço, como minha mais rica passividade. — Tudo isso é hoje apenas. Só Deus sabe o que acontecerá em Brasília. É que aqui o acaso é abrupto. — Brasília é mal-assombrada. É o perfil imóvel de uma coisa. — De minha insônia olho pela janela do hotel às três horas da madrugada. Brasília é a paisagem da insônia. Nunca adormece. — Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se. — Eu queria ver espalhadas por Brasília quinhentas mil águias do mais negro ônix. — Brasília é assexuada. — o primeiro instante de ver é como certo instante da embriaguez: os pés não tocam na terra. — como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira começa a querer. E querer é que não pode. Não tem. Será que vai ter? É que não estou vendo onde. — Não me espantaria cruzar com árabes na rua. Árabes antigos e mortos. — Aqui morre minha paixão. E ganho uma lucidez que me deixa grandiosa à toa. Sou fabulosa e inútil, sou de ouro puro. E quase mediúnica. — Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado. E tão pouco secreto, tão bem adequado ao planalto, que ninguém jamais saberá. — Aqui é o lugar onde o espaço mais se parece com o tempo. — Tenho certeza de que aqui é o meu lugar certo. Mas é que a terra me viciou demais. Tenho maus hábitos de vida. — A erosão vai desnudar Brasília até o osso. — O ar religioso que senti desde o primeiro instante, e que neguei. Esta cidade foi conseguida pela prece. Dois homens beatificados pela solidão me criaram aqui de pé, inquieta, sozinha, a esse vento. — Fazem tanta falta cavalos brancos soltos em Brasília. De noite eles seriam verdes ao luar. — Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que também é a idéia que faço da eternidade. Os dois criaram o retrato de uma cidade eterna. — Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado. — Em Brasília estão as crateras da Lua. — A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis.
(continuação nos próximos 7 posts)
  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 01:37:42

Brasília

Estive em Brasília em 1962. Escrevi sobre ela o que foi agora mesmo lido. E agora voltei doze anos depois por dois dias. E escrevi também. Aí vai tudo o que eu vomitei.
Atenção: vou começar.
Esta peça é acompanhada pela valsa sangue vienense de Strauss. São onze e vinte da manhã do dia 13.



BRASÍLIA: ESPLENDOR

Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. Também não tem botequim para a gente tomar um cafezinho. É verdade, juro que não vi esquinas. Em Brasília não existe cotidiano. A catedral pede a Deus. São duas mãos abertas para receber. Mas Niemeyer é um irônico: ele ironizou a vida. Ela é sagrada. Brasília não admite diminutivo. Brasília é uma piada estritamente perfeita e sem erros. E a mim só me alva o erro.
A Igreja de São Bosco tem vitrais tão esplêndidos que quedei muda sentada no banco, não acreditando que fosse verdade. Aliás a época que estamos atravessando é fantástica, é azul e amarela, e escarlate e esmeralda. Meu Deus, mas que riqueza. Os vitrais têm luz de música de órgão. Essa igreja tão assim iluminada é no entanto acolhedora. O único defeito é o inusitado lustre redondo que parece coisa de rico-novo. A igreja ficaria pura sem o lustre. Mas que é que se há de fazer? Ir de noite, bem no escuro, roubá-lo?
Depois fui à Biblioteca Nacional. Atendeu-me uma jovem russa que se chama Kira. Vi rapazes e moça estudando e namorando: coisa totalmente compatível. E louvável, é claro.
Paro um instante para dizer que Brasília é uma quadra de tênis.
Faz á um friozinho revigorante. Que fome, mas que fome. Perguntei se havia muito crime na cidade. Disseram-me que no satélite de Grama (é mesmo este o nome?) há uns três homicídios por semana. (Interrompi os crimes para comer.) A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos escuros no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. Embora haja ar sem poluição: respira-se bem, um pouco bem demais, o nariz seco.
Brasília nua me deixa beatificada. E doida. Em Brasília tenho que pensar entre parênteses. Me prendem por viver? É isso mesmo.
Eu não passo de frases ouvidas por acaso. Na rua, ao atravessar o trânsito, ouvi assim: “Foi por necessidade”. E no cinema Roxy, no Rio de Janeiro, ouvi duas mulheres gordas dizerem: “De manhã ela dormia e de noite acordava.” “Ela não tem resistência física.” Em Brasília tenho resistência física, enquanto que no Rio sou meio mole, meio doce. E ouvi a frase seguinte das mesmas mulheres gordas que eram baixas: “Que é que ela tem que fazer lá?” E foi assim, minha gente, que fui expulsa.
Brasília tem euforia no ar. Eu disse para o chofer de táxi amarelo: hoje parece segunda-feira, não é? “É”, respondeu ele. E nada mais foi dito. Eu queria tanto dizer a ele que estive na adoradíssima Brasília. Mas ele não quis saber. Às vezes sobro.
Então fui ao dentista, ouvi, Brasília? Eu me cuido. Devo ler revista odontológica só porque estou na sala de espera do dentista? Depois que sentei na magnífica cadeira de morte do dentista, cadeira elétrica, e vi uma máquina me olhando, chamada Atlante 200. Olhou foi à toa, porque eu não tinha cárie. Brasília não tem cárie. É terra forte, essa. E não é brincadeira. Joga alto e é para ganhar. Eu e Merquior demos grandes gargalhadas que ainda me ressoam no Rio. Fui irremediavelmente impregnada por Brasília.
Prefiro o entrelaçamento carioca. Fui delicadamente acarinhada em Brasília mas morri de medo de ler a minha palestra. (Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.) Eu me meto em cada uma, que vou te contar. Mas é bom porque é arriscado. Acreditem ou não: enquanto eu lia as palavras, eu por dentro rezava. Mas, de novo, é bom por ser arriscado. Agora me pergunto: se não há esquinas, onde ficam as prostitutas de pé fumando? Ficam sentadas no chão? E os mendigos? Têm carro? Pois se pode andar de carro lá.
A luz de Brasília leva à vezes ao êxtase e à plenitude total. Mas também é agressiva e dura — ah, como eu gostaria da sombra de uma árvore. Brasília tem árvores. Mas ainda não convencem. Parecem de plástico.
Vou escrever uma coisa da maior importância: Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada. É linda e é nua. Despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável. Aliás Brasília é implacável. Senti-me como se alguém me apontasse com o dedo: como se pudessem me prender ou tirar meus documentos, a minha identidade, a minha veracidade, e o meu último hálito íntimo. Ai se a radiopatruplha me pega me sova! Aí eu lhes digo a pior palavras da língua portuguesa: sovaco. E eles caem mortos. Mas para ti, meu amor, sou mais delicada e digo baixinho: axilas...
Brasília tem cheiro de pasta de dentes. E quem não é casado, ama sem paixão. Simplesmente transa sexo. Mas quero sobretudo conversar com os universitários. Quero que eles me convidem para participar dessa aridez luminosa e cheia de estrelas. Será que alguém morre em Brasília? Não. Nunca. Nunca alguém morre porque lá não se pode fechar os olhos. Lá há hibernação: o ar deixa uma pessoa entorpecida durante anos, uma pessoa que depois vive de novo. O clima é desafiador e chicoteia um pouco a gente. Mas falta magia em Brasília, falta macumba. Não quero que Brasília me rogue praga: pois pega. Rezo. Rezo muito. Ai que Deus bom. Tudo lá é às claras e quem quiser se vire. Embora os ratos adorem a cidade. Qual será a comida deles? Ah, já sei: eles comem carne humana. Escapei como pude. E parecia teleguiada.

  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 01:34:29

Brasília II

Dei inúmeras entrevistas. Modificaram o que eu disse. Não dou mais entrevistas. E se o negócio é mesmo na base da invasão de minha intimidade, então que seja paga. Disseram-me que nos Estados Unidos é assim. E tem mais: eu sozinha, é um preço, mas se entra o meu precioso cachorro, cobro mais. Se me distorcerem, cobro multa. Desculpem, não quero humilhar ninguém mas não quero ser humilhada. Eu disse lá que iria possivelmente à Colômbia e escreveram que eu ia à Bolívia. Trocaram o país à toa. Mas não tem perigo: de minha vida mesma eu só concedo dizer que tenho dois filhos. Não sou importante, sou uma pessoa comum que quer um pouco de anonimato. Detesto dar entrevistas. Ora essa, sou uma mulher simples e um pouquinho sofisticada. Misto de camponesa e de estrela do céu.
Adoro Brasília. É contraditório? Mas o que é que não é contraditório? Só se anda de carro pelas ruas despovoadas. Quando eu tinha carro e dirigia, vivia me perdendo. Nunca sabia onde vir e aonde chegar. Sou desorientada na vida, na arte, no tempo e no espaço. Que coisa, por Deus.
Lá as pessoas se jantam e se almoçam — é para ter gente que as povoe. Isto é bom e muito agradável. É a humanização lenta de uma cidade que por algum motivo é oculto é penosa. Gostei muito, me acariciaram tanto em Brasília. Mas havia pessoas que queriam que eu fosse embora a jatíssimo. Eu lhes atrapalhava a rotina. Para essas pessoas eu era uma novidade incômoda. Viver é dramático. Mas não há escapatória: nasce-se.
Como será quem nasce em Brasília quando crescer e virar homem? Porque a cidade é habitada por forasteiros nostálgicos. Os exilados. Os que nascem lá serão o futuro. Futuro faiscante como aço. Se eu ainda estiver viva, aplaudirei o produto estranho e altamente novo que surgirá. Será proibido fumar? Será proibido tudo, meu Deus? Brasília parece uma inauguração. Todos os dias é inaugurada. Festejos, minha gente, festejos. Que se ergam as bandeiras.
Quem me quer em Brasília? Então quem me quiser que me chame. Não já, porque ainda estou atordoada. Mas daqui a algum tempo. A ser viço. Brasília é a serviço. Quero falar com a camareira que me disse ao descobrir quem eu era: eu tinha tanta vontade de escrever! Eu disse: vá, mulher, e escreva. Respondeu: mas eu já sofri tanto. Eu disse severamente: pois vá e escreva sobre o que você sofreu.
Porque é preciso que alguém chore em Brasília. Os olhos dos habitantes são secos demais. Então — então eu estou me oferecendo para chorar. Eu e minha camareira, nós, as coleguinhas. Ela me disse: quando vi a senhora senti um arrepio no braço. Disse-me que era médium. É. Estou arrepiada. E sinto calafrios. Que Deus me acuda. Estou muda que nem lua.
Brasíla é tempo integral. Tenho medo, pânico dela. É lugar ideal para se tomar sauna. Sauna? Sim. Porque lá não se sabe o que fazer de si. Olha para baixo, olha para cima, olha para o lado — e a resposta é um berro: Nããããããão! Brasília dá um fora na gente que mete medo. Por que me sinto tão culpada lá? Que foi que fiz? E por que não ergueram bem no centro da cidade um grande ovo branco? É que não tem centro. Mas o ovo faz falta.
Que roupa se usa em Brasília? Metálica?
Brasília é o meu martírio. E não tem substantivo. É só adjetivo. E como dói. Ah, meu Deusinho, me dá um substantivinho, pelo amor de Deus! Ah, não quer dar? Então faz de conta que eu nada falei. Sei perder.
Oh aeromoça, vê se me dá um sorriso menos número! Isso é lá sanduíche que se coma? Todo desidratado? Mas faço como Sérgio Porto: me disseram que num avião a aeromoça lhe perguntou: o senhor aceita um cafezinho? E ele respondeu: aceito tudo o que tenho direito.
Em Brasília nunca é de noite. É sempre implacavelmente de dia. Castigo? Mas que foi que fiz de erra do, meu Deus? Não quero saber, diz Ele, castigo é castigo.
Em Brasília não se tem praticamente onde cair morto. Mas tem uma coisa: Brasília é proteína pura. Eu disse ou não disse que Brasília é uma quadra de tênis? Pois Brasília é sangue numa quadra de tênis. E eu? onde estou? eu? pobre de mim, com o lençol manchado de escarlate. Me mato? Não. Vico como bruta resposta. Estou ai para quem me quiser.
Mas Brasília é som oposto. E ninguém nega que Brasília é: goooooooool! Embora entorte um pouco o samba. Quem é? quem é que canta aleluia e eu ouço com alegria? Quem é que atravessa como espada afiadíssima a futura e sempre futura cidade de Brasília? Repito: proteína pura, que és. Me fertilizou. Ou sou eu mesma a cantar? Me ouço comovida. Há Brasília no ar. No ar infelizmente sem o apoio indispensável de esquina para se viver. Será que eu já disse que em Brasília não se vive? se mora. Brasília é osso seco de puro espanto no sol inclemente da praia. Ah cavalo branco mas que crina agreste. Ai, não posso mais esperar. Uma aviãozinho, por favor. E o lívido luar que entra pelo quarto adentro e me assiste, eu, pálida, branca, sestrosa.
Estou sem esquina. Meu rádio de pilha não pega música. Que é que há? Assim também não. Me repito? E dói?
Pelo amor de Seus (até errei de susto a palavra Deus), pelo amor de Deus, por favor me desculpem os que moram em Brasília por eu estar dizendo o que forçadamente digo, eu, uma humilde escrava da verdade.Não quero ofender ninguém. É apenas uma questão de luz branca demais. Tenho olhos sensíveis, fico invadida pela claridade alva e tanta terra vermelha.
Brasília é um futuro que aconteceu no passado.
Eterna como uma pedra. A luz de Brasília — estou me repetindo? — a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.
Fora disso, viva Brasília! Eu ajudo a hastear a bandeira. E perdôo a bofetada que me dão no meu rosto pobre. Ai, coitadinha de mim. Tão sem mãe. É dever ter mãe. É coisa da natureza. Sou a favor de Brasília.
No ano 2000 vai ter festa lá. Se eu ainda estiver viva, quero participara da alegria. Brasília é uma alegria geral exagerada. Um pouco histérica, é verdade, mas não faz mal. Gargalhadas no corredor escuro. Eu gargalho, tu gargalhas, ele gargalha. Três.
Em Brasília não tem poste para cachorro fazer pipi. Falta tanto um pipi-dog. Mas Brasília é jóia, meu senhor. Lá tudo funciona como deve. Brasília me encerra em ouro. Vou é ao cabeleireiro. Estou falando do Rio. Alô, Rio! Alô! Alô! estou realmente assustada. Que Deus me acuda
Mas tem hora que vou lhe dizer, meu amigo, tem hora em que Brasília é um cabelo na sopa. Sou muito ocupada, Brasília, vá para o diabo e me deixe em paz. Brasília fica em lugar nenhum. A atmosfera é de indignação e você sabe por quê. Brasília: antes de nascer já nasceu, a prematura, a nascitura, o feto, eu enfim. Ai que safadeza.
Em Brasília não entra qualquer um, não. É preciso nobreza, muita sem-vergonhice e muita nobreza. Brasília não é. É apenas o retrato de si próprio. Eu te amo, oh extrósima! oh palavra que inventei e que não sei o que quer dizer. Oh furúnculo! pus cristalizado mas de quem? Atenção: há esperma no ar.
  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 01:30:41

Brasília III

Eu, a escriba. Eu, a infeliz definidora por destino. Brasília é o contrário de Bahia. Bahia é nádegas. Ah que saudade da embebida praça de Vendôme. Ah que saudade da Praça Maciel Pinheiro em Recife. Tanta pobreza de alma. E tu a exigires de mim. Eu, que nada posso. Ah que saudade de meu cachorro. Tão íntimo que ele é. Mas um jornal tirou o retrato dele e ele ficou na boca da rua. Eu e ele. Nós, irmãozinhos de São Francisco de Assis. Calados fiquemos: é melhor para nós.
Ai que te pego, Brasília! E vai sofrer torturas terríveis nas minhas mãos! Você me incomoda, ó gélida Brasília, pérola entre os porcos. Oh apocalíptica.
E de repente a grande desgraça. O estrondo. Por quê? Ninguém sabe. H Deus, como é que eu não vi logo? pois não é que Brasília é a “A Saúde da Mulher”? Brasília diz que quer mas não quer: negaceia. Brasília é um dente quebrado bem na frente. E é cúpula também. Tem um motivo principal. Qual é? segredo, muito segredo, sussurros, cochichos e chichos. Diz-que-diz que não acaba mais.
Saudável, saudável. Aqui sou professora de educação física. Dou trambolhões. É isto mesmo: faço o inferno. Brasília é inferno paradisíaco. É uma máquina de escrever: toc-toc-toc. Quero dormir! me deixem em paz!!! Estou can-sa-da. De ser in-com-pre-en-sí-vel. Mas não quero que me compreendam senão perco a minha intimidade sagrada. É muito grave o que estou falando, muito grave mesmo. Brasília é o fantasma de um velho cego com cajado fazendo toc-toc-toc. E sem cachorro, coitado. E eu? como posso ajudar? Brasília se ajuda. É um violino fino, fino. Falta violoncelo. Mas que estrondo. Não se precisa disso, não. Eu afinaço. Embora Brasília não tenha fiador.
Quero voltar a Brasília para o apartamento 700. Assim ponho o pingo no “i”. Mas Brasília não flui. Ela é ao contrário. Assim: iulf (flui).
Ela é doida porém funciona. Como detesto a palavras “porém”. Só uso porque é preciso.
Quando anoitece Brasília se torna Zebedeu. Brasília é farmácia noite-e-dia.
A moça me revistou toda no aeroporto. Eu perguntei: tenho cara de subversiva? Ela disse rindo: até que tem. Nunca me apalparam tanto, Virgem Maria, até que é pecado. Foi um tal de passar a mão em mim que nem sei como agüentei.
Brasília é magra. É toda elegante. Usa peruca e cílios postiços. É pergaminho dentro de pirâmide. Não envelhece. É coca-cola, meu Deus, e vai me sobreviver. Que pena. Para a coca-cola, é claro. Socorro! Socorro! help me! Sabe qual é a resposta de Brasília ao meu pedido de socorro? É oficial: aceita um cafezinho? E eu? fico sem socorro? Me trate bem, ouviu? assim... assim... bem devagarzinho. Isso. Isso. Que alívio. Felicidade, meu bem, é alívio. Brasília é um pontapé no traseiro. É lugar para português enriquecer. E eu que jogo no bicho e não ganho?
Mas que nariz bonito Brasília tem. É delicado.
Você sabia que Brasília é etc.? Pois fique sabendo. Brasília é XPTR... quantas consoantes você quiser mas nenhuma vogal para se descansar. E Brasília, ó senhor, me desculpe, mas Brasília ficou por isso mesmo.
Olhe, Brasília, não sou dessas que nadam por aí, não. Mais respeito, faça o favor. Sou uma viajante espacial. Muito respeito eu exijo. Muito Shakespeare. Ah que eu não quero morrer! Ai, que suspiro. Mas Brasília é a espera. E eu não agüento esperar. Fantasma azul. Ah, como incomoda. É como tentar lembrar-se e não conseguir. Quero esquecer Brasília mas ela não me deixa. Que ferida seca. Ouro. Brasília é ouro. Jóia. Faiscante. Tem coisa sobre Brasília que eu sei mas não posso dizer, não deixam. Adivinhem.
E que Deus me acuda.
Vai, mulher, vai e cumpre o teu destino, mulher. Ser a mulher que sou é dever. Estou neste instante-já hasteando as bandeiras — mas que minuano! — e eu dizendo viva!
Ai que cansaço.
Em Brasília é sempre domingo. Mas agora vou falar bem baixinho. Assim: meu amor. Meu grande amor. Tenho dito? Você é que responde. Vou terminar com a palavra mais bonita do mundo. Assim bem devagarzinho: amor mas que saudade. A-m-o-r. Beijo-te. Assim como flor. Boca a boca. Mas que ousadia. E agora — agora paz. Paz e vida. Es-tou vi-va. Talvez eu não mereça tanto. Estou com medo. Mas não quero terminar com medo. Êxtase. Yes, my love. Entrego-me. Sim. Pour toujours. Tudo – mas tudo é absolutamente natura. Yes. Eu. Mas sobretudo você é culpada, Brasília. No entanto eu te desculpo. Não tens culpa de ser tão bela e patética e pungente e doida. Sim, está soprando um vento de Justiça. Então eu digo à Grande Lei Natural: sim. Ó espelho partido: quem é mais bonita que eu? Ninguém, responde o espelho mágico. Sim, bem sei, somos nós duas. Sim! sim! sim! Eu disse sim.
Peço humildemente socorro. Estão me roubando. Todo o mundo é eu? Espanto geral. Isso não é ventania não, senhor, é ciclone. Estou no Rio. Desci afinal do disco voador. E lá me vem uma amiga a me dizer — olá Cármen Miranda! – a me dizer que existe uma música chamada Boneca de piche que diz assim mais ou menos: venho apertado com meus calos quentes, quase afogado no meu colarinho, pra ver meu bemzinho.
Aterrissei. Estou com voz frace mas digo o que Brasília quer que eu diga: bravo! bravíssimo! E chega. Vou agora viver no Rio com o meu cachorro. Peço o favor de fazerem silêncio. Assim: si-lên-cio. Estou tão triste.
Brasília é um olho azul cintilanterríssimo que me arde no coração.
Brasília é Malta. Onde fica Malta? Fica no dia do supernunca. Alô! alô! Malta! Hoje é domingo em Nova Iorque. Em Brasília, a fúlgida, já é terça-feira. Brasília simplesmente pula segunda-feira. Segunda é dia de se ir ao dentista, que é que se há de fazer, o que é chato também tem que ser feito, ai de mim. Em Brasília aposto que ainda se dança, que coisa. São seis e vinte da tarde, já quase noite. Às seis e vinte não acontece nada. Ale! Alô! Brasília quero resposta, tenho pressa, acabo de assumir a minha morte. Estou triste. O passo é grande demais para as minhas pernas no entanto compridas. Me ajudem a morrer em paz. Como eu disse ou como não disse, quero uma mão amada que aperte a minha na hora de eu ir. Vou sob protesto. Eu. A fantasmagórica. Meu nome não existe. O que existe é um retrato falsificado de um retrato de outro retrato meu. Mas a própria já morreu. Morri dia 9 de junho. Dominho. Depois de ter almoçado na preciosa companhia dos que amo. Comi frango assado. Estou feliz. Mas falta a verdadeira morte. Estou com pressa de ver Deus. Rezem por mim. Morri com elegância.
Tenho alma virgem e portanto preciso de proteção. Quem me ajuda? O paroxismo de Chopin. Só você pode me ajudar. No fundo sou sozinha. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem. Estou tão só. Eu e meus rituais. O telefone não toca. Dói. Mas é Deus que me poupa. Amém.
  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 01:29:06

Brasília IV

Vocês sabem que eu sei falar língua de cachorro e de planta também? Amém. Mas minha palavras não é a última. Existe uma que não posso pronunciar. E minha história é galante. Sou uma carta anônima. Não assino o que escrevo. Os outros que assinem. Não sou credenciada. Eu? mas logo eu? Nunca! Preciso de um pai. Quem se candidata? Não, não preciso de pai, preciso do meu igual. Espero a morte. Mas que vento, meu senhor. Vento é coisa que não se pode ver. Pergunto a Nosso Senhor Deus Jeovah sobre sua cólera em forma de vento. Só Ele pode explicar. Ou não pode? Se Ele não pode, estou perdida. Ai que te amo e amo tanto que te morro.
Lembram que eu falei na quadra de tênis com sangue? Pois o sangue era meu, o escarlate, os coágulos eram meus.
Brasília é corrida de cavalos. Eu não sou cavalo não. Que Brasília se dane e corra sozinha sem mim.
Brasília é hiperbólica. Estou suspensa até à última ordem. Eu vivo de teimosa que sou. Aterrissei mesmo. There is no place like home. Como é bom voltar. Ir é bom mas voltar é mais melhor. Isso mesmo: mais melhor.
O que é supletivo em Brasília? Não sei não, meu senhor. Só sei que tudo é nada e que nada é tudo. Meu cachorro dorme. Eu sou o meu cachorro. Eu me chamo Ulisses. Estamos ambos cansados. Tão, tão cansados. Ai de mim, ai de nós. Silêncio. Durma você também. Ah cidade espantada. Ela se espanta com ela mesma. Estou rançosa. Vou até reclamar como Chopin reclamou sobre a invasão da Polônia. Afinal tenho direitos. Eu sou eu, é assim que os outros dizem. E se dizem, por que não acreditar? Adeus. Estou enfastiada. Vou reclamar. Vou reclamar para Deus. E se Ele puder, que me atenda. Sou uma necessitada. Saí de Brasília com uma bengala. Deus é uma coisa engraçada: Ele se pode a si mesmo e se precisa a si próprio.
Vim para casa, é verdade, mas não é que minha cozinheira faz literatura? Eu lhe perguntei cadê a coca-cola na geladeira. Ela me respondeu, nega bonita que é: ela estava tão cansadinha, então eu botei ela pra descansar, coitadinha. Uma vez, há séculos, contei a Paulo Mendes Campos uma frase que minha empregada de então tinha me dito. E ele escreveu qualquer coisa assim: cada um tem a empregada que merece. Minha empregada tem uma voz linda e canta para mim quando eu peço: “ninguém me ama”. Ela desenha, faz literatura. Tão humilde que fico. Pois não mereço tanto.
Eu não sou nada. Sou um domingo frustrado. Ou estou sendo ingrata? Muito me foi dado, muito me foi tirado. Quem ganha? Não sou eu não. É alguém hiperbólico.
Brasília, seja bicho um pouco também. É tão bom. Ao bom mesmo. Não ter pipi-dog é uma ofensa a meu cachorro que nunca irá a Brasília por motivos óbvios. São quinze para seis. Hora nenhuma. Até Kissinger está dormindo. Ou está num avião? Não há como adivinhar. Feliz aniversário, Kissinger. Feliz aniversário, Brasília. Brasília é um suicídio em massa. Brasília, você está se coçando? eu não, não caio nessa porque quem começa não pára de se. Você sabe o resto.
O resto é paroxismo.
Ninguém sabe, mas meu cachorro não só fuma como bebe café e come flor. E bebe cerveja. Toma também remédio contra depressão. Parece um mulatinho. O que ele quer é cadela. Ele é de classe média. Eu não deixei o jornal saber tudo. Mas agora é a hora da verdade. Também você tenha a coragem de ler. É um cachorro que só lhe falta escrever. Come caneta e estraçalha papel. Melhor que eu. Ele é filho animal. Nasceu de instantâneo contato da Lua com uma égua. Égua do Sol. Ele é uma coisa que Brasília não é. Ele é: bicho. Eu sou bicho. Tenho tanta vontade de me repetir, só para chatear. Meu Deus, voltei atrás no tempo. São exatamente vinte para seis. E respondo à máquina: yes. A máquina monstruosa. É um telescópio. Que ventania. É ciclone? É.
Mas que lugar par ser bonito. Hoje é segunda-feira, dia 10. Como vê, eu n~]ao morri. Vou ao dentista. Semana perigosa, essa. Eu falo a verdade. Não a verdade toda, como disse. E se Deus sabe, isso é com Ele. Ele que se arrume. Não sei mas vou me arrumar como posso. Como aleijado. Viver de graça é que não se pode. Pagar para viver? Tenho sobrevida. Igual ao vira-lata Ulisses. Quanto a mim acho que.
Que vergonha. É meu caso de vergonha pública. Tenho três bisontes na minha vida. Um mais um mais um mais um mais um. O quarto me mata em Malta. Na verdade o sétimo é o mais brilhante. Bisonte, para quem não sabe, é animal de caverna. Desempenho as minhas histórias. Calor humano. Cidade sem medo, essa. Deus é a hora. Vou durar ainda. Ninguém é imortal. Vê lá se encontra um que não morre.
Morri. Morri assassinada por Brasília. Morri para pesquisar. Rezem por mim porque eu morri de costas.
Olha, Brasília, fui embora. E que Deus me acuda. É sou um pouco antes. É só isso. Juro por Deus. E sou um pouco depois também. Que é que há de se fazer. Brasília é vidro partido no chão da rua. Cacos. Brasília é ferrinho de dentista. E muito motocicleta também. Sem deixar de ser ova de peixe, bem frita e bem salgada. Acontece que sou tão ávida da vida, tanto quero dela e aproveito-a tanto e tudo é tanto — que me torno imoral. Isso mesmo: sou imoral, Que bom ser imprópria até dezoito anos.
Brasília faz ginástica todos os dias ás cinco da manhã. Só os baianos de lá é que entram nessa. Fazem poesia.
Brasília é o mistério classificado em arquivos de aço. Tudo lá se classifica. E eu? quem sou? como é que me classificaram? Deram-me um número? Sinto-me numerificada e toda apertada. Mal caibo dentro de mim. Eu sou um euzinho muito mixa. Mas com certa classe.
Ser feliz é uma responsabilidade tão grande. Brasília é feliz. Tem essa ousadia. O que será de Brasília no ano, digamos, de 3000? Quanta ossada. Ninguém se lembra do futuro porque não pode ser. As autoridades não deixam. E eu, quem sou? obedeço de puro medo ao mínimo soldado que apareça na minha frente e me diga: considere-se prendida. Ai vou chorar. Sou por um triz. On the verge of.
Está se vendo que não sei descrever Brasília. Ela é Júpiter. É palavra bem aplicada. É gramatical demais para o meu gosto. E o pior é que ela exige gramática but I don’t know, sir, I don’t know the rules.
Brasília é um aeroporto. Os alto-falantes anunciando fria e cortesmente a partida dos aviões.
Que mais? é que não se sabe o que fazer em Brasília. Só fazem os que trabalham danadamente, os que danadamente fazem filhos e danadamente se reúnem em jantares de grandes delicadezas.
Fiquei hospedada no Hotel Nacional. Apartamento 800. E bebi coca-cola no quarto. Vivo — boba que sou fazendo propaganda de graça.
  • criado por  furquimjr criado por furquimjr
  • Postado em 01:28:08